A fera do mundo pop
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segunda-feira, 27 de julho de 1998
Guto Barra Agência Estado 
Enquanto no Brasil ela é mais associada a confusões no Carnaval e apresentações duvidosas em casas noturnas, na Europa e nos Estados Unidos Grace Jones ainda recebe tratamento de ícone pop. A cantora jamaicana acaba de ter a fase mais produtiva de sua carreira relançada em um CD duplo recheado de versões inéditas de suas músicas. Como no mundo pop timing é tudo, ela acerta ao colocar novamente no mercado faixas que traduzem seus momentos mais criativos e que soam frescas e inovadoras no fim dos anos 90.
Private Life: The Compass Point Sessions é mais um passo marcante na carreira cheia de relançamentos da cantora (nos anos 80 ela garantiu seu lugar no mercado com compilações como Island Life e conjuntos de remixes como Slave to the Rhythm). Por estar sempre reciclando seu não tão vasto catálogo musical e por ter chegado ao topo graças à ajuda de terceiros, Jones nunca foi tratada com muita seriedade. Dublê de cantora, diva do playback e atração fabricada são descrições frequentemente atreladas ao nome dela. O novo lançamento consegue desfazer um pouco esta impressão.
A base das 26 músicas do disco foram gravadas no lendário estúdio Compass Point, construído pelo fundador da gravadora Island, Chris Blackwell, nas Bahamas. Formado por um complexo de salas de gravações e confortáveis alojamentos construídos para os artistas, o estúdio serviu de cenário para os discos Warm Leatherette, Nightclubbing e Living My Life, lançados respectivamente em 1980, 1981 e 1982.
Depois de despontar na cena disco nova-iorquina com hits como I Need a Man e La Vie en Rose, Jones se viu perdida com a dissolução do gênero, até que acabou se tornando um projeto conjunto de Blackwell com o engenheiro de som Alex Sadkin e o artista plástico francês Jean Paul Goude. Se por um lado seu rosto já era conhecido por trabalhos como modelo nas capas de revistas como a Vogue e a Elle e seu look já tivesse sido aprovado por nomes como Andy Warhol e Richard Bernstein, sua música ainda precisava ganhar personalidade.
Jones foi, então, a primeira artista a se beneficiar da banda Compass Point All Stars, formada por alguns dos melhores e mais versáteis músicos disponíveis na Jamaica, na Europa e nos Estados Unidos no início dos anos 80. Teleguiada em meio a essa estrutura, ela conseguiu imprimir sua marca em faixas originais e covers que se tornaram clássicos. Com uma produção que mistura elementos de reggae e rhythm & blues com experimentações de sintetizadores, a cantora produziu músicas que invadiram pistas de danças e conquistaram as paradas norte-americanas e, principalmente, as inglesas.
A nova compilação traz vários momentos bons. De Warm Leatherette, vêm, além de uma versão mais longa da faixa-título, um tratamento dub de Private Life, o cover dos Pretenders que impressionou Chrissie Hynde, além de Love Is the Drug, do Roxy Music, também mais longa. Do álbum seguinte, Nightclubbing, eleito pelo New Music Express o disco do ano em 1981 na Inglaterra, também saem boas faixas. É o caso de Demolition Man, de Sting, e Use Me, ambas em versões mais longas. Das gravações de Living My Life, saem a versão lançada no single de My Jamaican Guy, que serviu de base para Wild Thing, do 2 Much, e do recente megahit de L.L. Cool J, Doin It, além de um novo tratamento para a música que dá nome ao disco.
Private Life traz também duas canções inéditas, Ring of Fire, um reggae em que ela canta com voz mais grave do que o normal, e Man Around the House, que não se destaca muito. A única faixa que não faz parte das sessões do Compass Point é Slave to the Rhythm, que marcou o início de uma nova sonoridade, mais eletrônica, fruto da produção de Trevor Horn e da estréia do megasequenciador Synclavier. A faixa aparece em uma versão que nunca havia sido lançada em CD.
O único problema da compilação é a impressão que ela passa de que Jones foi enterrada ainda na primeira metade dos 80. Embora ela não tenha conseguido emplacar discos nas paradas nos últimos dez anos, ela se mantém como sensação da dance music internacional, ainda que com uma carreira bissexta. Suas novas produções têm incluído trabalhos de DJs importantes do underground de Nova York e Londres e suas apresentações performáticas até hoje reúnem multidões de clubbers em grandes centros. E como Jones nunca se importou em ser tratada como um produto do pop, é bem capaz que ela consiga se reembalar e conquistar o mainstream novamente.


