Os queixosos continuam abrindo o bico. Mas nunca, nos últimos dez anos, a música popular brasileira foi tão generosamente acolhida pelo mercado fonográfico como nesta temporada.
A MPB de qualidade parece retomar seu posto entre as prioridades dos chefões das gravadoras. Um dos motivos talvez seja o colapso nas vendas do pagode e da axé. O fato é que o público não tem decepcionado, consumindo até trabalhos insuspeitos como os do ‘‘maldito’’ Luiz Melodia e da novata Ana Carolina, que andam saltitantes com a conquista de seus respectivos Discos de Ouro.
Retrospectivamente, é possível apontar as milhões de cópias vendidas dos álbuns ao vivo de Caetano Veloso e Djavan – cujas marcas jamais haviam sido alcançadas pelos dois artistas – como os primeiros sinais de um novo ciclo de sucesso da canção verde-amarela. Emblemático dessa ‘‘revalorização’’, é a proliferação de coletâneas de música popular brasileira no mercado.
Só no último trimestre, cinco séries – e mais os novos pacotes de outras duas coleções – chegaram às lojas deixando o público zonzo diante de tantos títulos. A maioria parece feita às pressas, omitindo letras e informações mínimas nos encartes. A gravadora EMI é a que mais tem alimentado o boom. Acaba de lançar a série ‘‘Bis’’, formado por CDs duplos com 28 faixas cada.
Os discos são compilações de sucessos de artistas dos mais diversos espectros, nem todos abençoados pelo dom da criação refinada. Entre os destaques figuram Djavan, Nana Caymmi, Paulinho da Viola, Adoniran Barbosa, Dolores Duran, Luiz Melodia, Clara Nunes, Raul Seixas, Dalva de Oliveira, Maria Bethânia, Lô Borges e Beto Guedes.
Há resgates louváveis como Taiguara e Paulo Diniz e contrapontos como Elymar Santos, The Fevers, Reginaldo Rossi e outros dispensáveis. Também pela EMI, as séries ‘‘20 Sucessos’’ e ‘‘Raízes do Samba’’ desembarcam nas prateleiras com seus novos pacotes trazendo 20 e 16 títulos respectivamente. A primeira também reúne um conjunto díspare de artistas no qual cabem tanto nomes esquecidos como Waleska, Roberto Luna, Waldyr Camon e The Jordans quanto figuras de estirpe duvidosa como Paulo Sérgio, Nelson Ned e Agnaldo Rayol.
A fornada de ‘‘Raízes do Samba’’, por sua vez, contempla obras de Ary Barroso, Cartola, Ataulfo Alves e outros não menos ilustres. Habitual fabricante de coletâneas, a gravadora Som Livre apresenta desta vez a coleção ‘‘Pérolas’’ abrangendo 30 títulos de notáveis como Elis Regina, Chico Buarque, Jorge Benjor, Beth Carvalho, Tim Maia e Jovelina Pérola Negra.
Inclui também CDs de Xuxa, Wando e outros intragáveis, além de repescar repertórios da dupla Sá & Guarabyra e da banda de rock Casa das Máquinas. Curiosa e recomendável é a série de CDs duplos ‘‘E-Collection’’, da Warner, onde os artistas selecionados aparecem com seus sucessos num disco e com seus ‘‘lados-B’’ no outro disco.
O responsável por essa empreitada é o carioca Marcelo Fróes, editor da revista International Magazine. O primeiro pacote abriga Gilberto Gil, Jorge Benjor, Ed Motta, Lulu Santos, Zélia Duncan e as bandas Ira!, Barão Vermelho e Ultraje a Rigor. As faixas do segundo disco constituem raridades garimpadas nos arquivos da gravadora.
A WEA, em parceria com a Continental, também aderiu ao repertório de catálogo. Sua coleção ‘‘Enciclopédia Musical Brasileira’’, idealizada pelo produtor Carlos Sion, reúne 34 álbuns oferecendo um diversificado painel da MPB. A pesquisa do material não se limitou ao baú das duas gravadoras, escavando relíquias em outras casas fonográficas.
Cada artista eleito é contemplado com 14 faixas. O elenco destaca nomes como Gilberto Gil (ele de novo), Benjor (idem), Lupicínio Rodrigues, Carlos Cachaça, Candeia, Carlos Lyra, Paulinho da Viola, Aracy de Almeida, Luiz Bonfá, Baden Powell, Waldir Azevedo, Tom Zé, Novos Baianos, Marina Lima e Raul Seixas.
A série inclui dois títulos temáticos e de participação coletiva: ‘‘Os Reis da Voz’’ (Orlando Silva, Vicente Celestino etc) e ‘‘Rock 80’’ (Ira!, Inocentes etc). Alguns discos reúnem dobradinhas, em geral com afinidade estética, caso dos volumes que juntam Jards Macalé e Luiz Melodia e Noel Rosa e Mário Reis.
Nesse mesmo formato, juntando hits de dois artistas num mesmo título, a coleção ‘‘O Melhor de 2’’ é a contribuição da gravadora Universal ao filão das coletâneas. Caetano Veloso com Chico Buarque, Zizi Possi com Ney Matogrosso, Cazuza com Cássia Eller, Gal com Bethânia e Zeca Baleiro com Chico César são algumas das duplas escolhidas.
Completando a avalanche de lançamentos, a BMG vem na esteira com a série ‘‘Grandes Sucessos’’, na qual pinça 27 expoentes do cancioneiro brega-romântico e de seus eventuais precursores (localizados aqui no iê-iê-iê). Waldick Soriano, Odair José, Perla, Ronnie Von, Jane & Herondy, Rosemary e Demétrius são algumas das vozes cortadas pelo laser.
O povo adora coletâneas e as gravadoras não gastam nada para produzi-las. Deveriam ser vendidas a R$ 1,90.

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