Poesia pode não dar dinheiro, não conferir méritos, não vender livros, não seduzir mulheres, não alimentar currículos, não lavar roupa suja e muitos outros ‘‘nãos’’. Por outro lado, é capaz de mover discussões calorosas. Já virou uma espécie de rotina: toda vez que alguma antologia poética é publicada logo aparece o bloco dos contentes e, em paralelo, o bloco dos descontentes. Cada grupo empunhando bandeiras, bumbos e caixas de argumentos.
Com ‘‘Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século’’, organizado por Ítalo Mariconi, não está sendo diferente. Lançada pela Editora Objetiva durante a Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro que termina hoje, a obra tornou-se uma das vedetes do evento. Mesmo antes de ser publicada, já despertava expectativas gerando críticas corrosivas e elogios melados, além de jogar muita lenha na fogueira das vaidades.
O motivo talvez seja simples. ‘‘Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século’’ segue os mesmos moldes de ‘‘Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século’’, também organizado por Ítalo Mariconi. Publicado há um ano também pela Objetiva, o livro converteu-se em best-seller – algo em torno de 70 mil exemplares vendidos. Um número bem expressivo tratando-se de contos. Nessa perspectiva, o novo volume é um forte concorrente ao sucesso num gênero pouco lido, a poesia.
Doutor em Letras e professor de literatura brasileira da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Ítalo Mariconi, em ‘‘Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século’’, optou por não realizar uma antologia pautada em padrões acadêmicos. Para estruturar sua proposta de seleção, resolveu trilhar um caminho específico: ‘‘Para chegar a essa proposta, resolvi criar uma figura de ficção. O leitor e a leitora ‘marcianos’ no planeta da poesia. A essa figura hipotética é que se destinaria, em primeiro lugar, meu panorama. Tinha certeza de que, agradando a tal figura, estaria agradando a todos os demais tipos de leitores. Meu leitor marciano seria brasileiro de nascença, bem alfabetizado, razoavelmente informado, amante da leitura, e teria por característica básica não conhecer nada ou quase nada da melhor poesia literária de seu país, mas estaria com muita vontade de passar a conhecê-la, de explorar esse território.’’
Mesmo diante dessa proposta, Mariconi inseriu um capítulo no volume intitulado ‘‘O Cânone Brasileiro’’ basicamente centrado em nomes como Drummond, João Cabral e Cecília Meireles. Em sua justificativa para essa escolha, declara que o cânone poético possui, dentro de uma cultura, um importância política e pragmática: ‘‘Idealmente, ele compreende os poemas que levam a língua de todo o dia ao extremo de suas possibilidades de expressão, beleza, emoção e lucidez. O cânone é um capital linguístico. Ler e reler um poema canônico é aperfeiçoar o nível de alfabetização. A alfabetização em todos os sentidos: no sentido da compreensão das palavras, dos discursos e da verdades; no sentido da compreensão da vida humana e suas diferenças; no sentido de uma educação progressiva da sensibilidade. O cânone poético em uma função educativa genérica de criar identidade.’’
As maiores críticas que recaem sobre ‘‘Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século’’ diz respeito aos excluídos. Exatamente sobre nomes de peso (ou de lobby poderoso) da poesia brasileira que ficaram de fora da antologia. Dezenas de autores que ficaram chupando o dedo. Na realidade, o modo mais imediato de crítica consiste em apontar os nomes que ficaram ausentes do volume e não uma avaliação do que ele realmente traz. Afinal o próprio título da obra aponta para os ‘‘Melhores Poemas’’ e não para os ‘‘Melhores Poetas’’. Claro que existe um vínculo entre uma coisa e outra, mas seria mais consistente apontar o ‘‘poema’’ que ficou de fora, não o ‘‘poeta’’. Isso porque o grande interesse deveria recair sobre o poema propriamente dito, não sobre quem o criou.
Já virou uma espécie de frase feita dizer que nenhuma antologia poética consegue realizar um perfeito mapeamento da produção literária de determinada época, de determinada região, ou mesmo de determinado gênero. Isso pode ser considerado um fato e, justamente por isso, as antologias aparecem uma após outra trazendo novos elementos.
Não seria exagero dizer que poeta é uma verdadeira praga, em cada quarteirão é possível encontrar três ou quatro em atividade. Nesse contexto, mesmo dentro da produção de um autor constituído, com vários livros publicados, escolher um único texto revela-se um tarefa difícil e ingrata. Nesse sentido, ‘‘Os Cem Melhores Poemas do Século’’ deve ser lido pelo o que traz, não pelo que por ventura poderia trazer. Livros, assim como qualquer obra de arte, devem ser lidos pelo que são, não pelo que poderiam ser. Do mesmo modo como devemos nos relacionar com as pessoas do jeito que elas são, não como gostaríamos que elas fossem.
A seleção de Ítalo Mariconi pode ser questionada por acadêmicos, por poetas e fanáticos do verso. Mas é inegável que o grande público, aquele que deseja entrar em contato com a poesia produzida no Brasil nos últimos 100 anos, terá nas mão uma amostragem de excelente qualidade. A rica diversidade poética produzida no país está representada sem preconceitos. Um verdadeira viagem por um mundo que apresenta uma contagiante fé no movimento das nuvens.
A obra é dividida em quatro partes. A primeira delas traz a poesia produzida sob a influência do movimento modernista de 1922, onde a tradição é abandonada em nome de uma literatura mais brasileira. Nessa etapa, nas palavras de Mariconi, os autores esquecem Lisboa e celebram Paris, aposentam Camões e consagram Baudelaire: ‘‘Por outro lado eles absorvem a linguagem popular das ruas, dos múltiplos acentos regionais, os falares multiétnicos de nossos índios e nossos negros. Ficamos menos lusitanos. E nos tornamos, de um só golpe, mais cosmopolitas e mais nacionalista.’’ Entre os vários nomes presentes estão Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Murilo Mendes e Augusto dos Anjos.
A segunda parte procura abarcar a produção germinada entre as décadas de 1930 e 1960 com inclinações líricas. Para o organizador, esse período a poesia atinge a beleza muito próxima da música popular. Aborda os eternos temas humanos de uma maneira nova, moderna: ‘‘Da dor e da delícia de exitir, do amor e do desejo, da angústia diante da morte própria e/ou do ser amado, da nostalgia da infância, da beleza fugaz do adolescente e do atleta. São vislumbres do eterno na fugacidade do tempo.’’ ’’ Entre os poetas presentes estão Carlos Drumond de Andrade, Mário de Andrade, Mário Quintana, Jorge de Lima, Mário Faustino, Paulo Mendes Campos e Carlos Nejar.
Na terceira parte de ‘‘Os Cem Melhores Poemas do Século’’ Mariconi apresenta o que nomeia de cânone brasileiro: as obras máximas dentro da trajetória histórica da literatura nacional onde se juntam, em alto grau, a habilidade verbal e o fôlego criativo. Centra sua atenção na produção de João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes e Ferreira Gullar.
A quarta e última parte do livro traz versos produzidos a partir dos anos 60, uma seleção que centraliza possíveis críticas à obra. Isso porque o leque de autores e de diversidade estética são gigantescos. De acordo com Mariconi, um período onde a cultura pop começa a se fazer cada vez mais presente: ‘‘O poema volta-se para a circunstância imediata da vida, valorizando aquilo que no cânone é considerado ‘menor’ como temas ou como gênero poético. Os poetas já não querem falar em nome da nação ou do povo e sim relatar a experiência de sua geração, a experiência do conflito de gerações que marcou os anos 60/70. A poesia incorpora o impuro, o pequeno, o obsceno.’’ Entre os 36 selecionados na seção estão Adélia Prado, Ana Cristina Cesar, Torquato Neto, Cacaso, Hilda Hilst, Manoel de Barros, Francisco Alvim, Waly Salomão, Haroldo de Campos, Olga Savary, Ivan Junqueira, Armando Freitas Filho e Antonio Cicero.
Do Paraná apenas dois autores integram ‘‘Os Cem Melhores Poemas do Século’’, o curitibano Paulo Leminski e o londrinense Rodrigo Garcia Lopes. Em relação à Leminski, sua presença no volume era inevitável. O poema escolhido foi ‘‘Sintonia Para Pressa e Presságio’’, publicado originalmente no livro póstumo ‘‘La Vie en Close’’ (Editora Brasiliense, 1991). Em relação à Garcia Lopes, a escolha dos versos de ‘‘Stanzas in Meditation’’ (publicado em ‘‘Visibilia’’, Editora Sette Lettas, 1998) revela-se uma surpresa agradável. Sua produção poética, embora ainda restrita a um restrito número de leitores, a cada dia ganha a merecida projeção nacional.
• Os Cem Melhores Poemas Brasileiro do Século - Organização, introdução e referências bibliográficas de Ítalo Mariconi, Editora Objetiva, poemas de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Oswald de Andrade, Jorge de Lima, Manuel Bandeira, Pedro Kilkerry, Alphonsus de Guimaraens, Ribeiro Couto, Augusto dos Anjos, Olavo Bilac, Gilka Machado, Augusto Meyer, Ascenso Ferreira, Raul Bopp, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Mário de Andrade, Emílio Moura, Mário Quintana, Maria Ângela Alvim, Joaquim Cardozo, Dante Milano, Paulo Mendes Campos, Mário Faustino, Zilda Mamede, Carlos Nejar, João Cabral de Melo Neto, Henriqueta Lisboa, Ferreira Gullar, Adélia Prado, Ana Cristina Cesar, Roberto Piva, Manoel Caboclo, Augusto de Campos, Torquato Neto, Chacal, Olga Savary, Adão Ventura, Cacaso, Paulo Leminski, Paulo Henriques Britto, Dora Ferreira da Silva, Hilda Hilst, Arnando Freitas Filho, Haroldo Campos, Carlito Azevedo, Adriano Espínola, Manoel de Barros, Ivan Junqueira, Ruy Epinheira Fiho, Francisco Alvim, Waly Salomão, Glauco Mattoso, Lu Menezes, Claudia Roquete-Pinto, Jorge Wanderley, Rodrigo Garcia Lopes e Antonio Cicero, 352 páginas, R$ 32,90.

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