A fé no caminho da roça
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de maio de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
O profeta errou. O sertão não virou mar porque Deus é brasileiro. Brazuca e sertanejo uai, já que todo mundo por aqui tem um pezinho na roça. Então, se a igreja é a casa de Deus, não há ó gente, ó não, lugar melhor do que esse sertão para o caipira expressar toda a sua devoção, através das missas sertanejas.
...A gente pega a viola e ponteia/vendo a igreja toda cheia, pra ouvir com emoção, canta o Grupo de Canto Rainha do Universo, no Parque Alvorada (Zona (Oeste), para aclamar ao Evangelho nas missas, que já se tornaram tradição no mês de junho, desde que começaram a animar, há cinco anos, esse tipo de celebração.
O grupo, formado por 12 paroquianos, entre cantores e músicos, já está com a agenda cheia para junho, mês dos santos Antônio, Pedro e João.
Começamos a fazer as missas sertanejas no Curso Intensivo de Vivência Cristã (CVC) e aí passamos a atender outras comunidades, lembra o comerciário Olivar de Souza, 57 anos, que coordena o grupo de cantos.
No alto levo a Bíblia/Que é pra todo mundo vê/As mensagens nela escrita, vai mudá o seu vivê, cantam em cima da melodia de Sereno da Madrugada, os seis cantores que, como as duplas sertanejas, se dividem em primeira e segunda voz.
Para começar a missa, a moda é Menino da Porteira, que recebe os fiéis com os versos Toda vez que eu venho aqui na igreja pra rezar/Também agradeço a Deus por tudo o que ele me dá/Todos juntos num só coro cantando com muito amor/Canto e rezo tão feliz, louvando a nosso Senhor.
O berrante nas mãos de Gustavo Galindo, 15 anos, o mais jovem integrante do grupo, abre caminho para a procissão das oferendas.
No altar, os fiés colocam tudo o que têm: saúde, família e o trabalho, que sobem ao céu no ritmo de Estrada da Vida, canção consagrada nas vozes de Milionário e José Rico.
Na versão religiosa da música, o verso: Este é o exemplo da vida/Para quem não quer compreender:/Nós devemos ser o que somos,/Ter aquilo que bem merecer se transforma em Este exemplo Jesus deu em vida/Disse ao povo pra compreender:/Nós devemos ser o que somos/Ter aquilo que bem merecer.
Merecimento, esforço ou dom de Deus, Galindo conta que aprendeu a tocar berrante sozinho, instrumento que anuncia os momentos mais importantes da missa.
O meu pai me deu o berrante, que veio do Mato Grosso. Além de gostar do instrumento, o mais importante é poder tocar para Deus, comenta Galindo, que também toca viola. O repertório respeita os arranjos originais das músicas de raiz. Olivar e a irmã dele, Analice Maria de Souza se encarregam de adaptar algumas letras.
A maioria das músicas já existe. Tomamos bastante cuidado na seleção das letras originais, que serão adaptadas para as celebrações, explica Olivar.
A saudade da roça pega até quem sempre morou na cidade. Esse é o caso da vocalista e violonista, a bancária Fátima Ferraro, 29 anos, que aprendeu a gostar do gênero sertanejo com o pai acordeonista.
Na hora de afinar todos os instrumentos, como acordeon, violas, violões e as vozes num grupo com tantas pessoas, Olivar diz que é um pouco difícil, mas com jeitinho tudo acaba dando certo.
Ele conta que as pessoas ficam emocionadas nas celebrações, algumas até pedem as letras das músicas e outras sugerem novas canções para o repertório litúrgico. É comum a igreja toda cantar junto com os músicos.
Os integrantes do grupo, além de distrair a saudade da roça, ganham um pontinho no céu - ainda que não cobrem nada pelo trabalho.
Eu já tocava na igreja, antes de participar das missas sertanejas, mas a oportunidade foi um grande presente, além de representar uma expressão de fé, afirma o violonista, o mestre-de-obras Valter Granado Munhoz, 57 anos.
No final da missa, os músicos pedem a benção à Padroeira do Paraná, cantando com todo povo Santa Virgem do Rocio/Quem te vê e quem te viu, nunca mais esquecerá/Os seus milagres profundos/Que aos filhos deste mundo, vós não cansas de mostrar.


