O profeta errou. O sertão não virou mar porque Deus é brasileiro. Brazuca e sertanejo uai, já que todo mundo por aqui tem um pezinho na roça. Então, se a igreja é a casa de Deus, não há ó gente, ó não, lugar melhor do que esse ‘‘sertão’’ para o caipira expressar toda a sua devoção, através das missas sertanejas.
  ‘‘...A gente pega a viola e ponteia/vendo a igreja toda cheia, pra ouvir com emoção’’, canta o Grupo de Canto Rainha do Universo, no Parque Alvorada (Zona (Oeste), para aclamar ao Evangelho nas missas, que já se tornaram tradição no mês de junho, desde que começaram a animar, há cinco anos, esse tipo de celebração.
  O grupo, formado por 12 paroquianos, entre cantores e músicos, já está com a agenda cheia para junho, mês dos santos Antônio, Pedro e João.
  ‘‘Começamos a fazer as missas sertanejas no Curso Intensivo de Vivência Cristã (CVC) e aí passamos a atender outras comunidades’’, lembra o comerciário Olivar de Souza, 57 anos, que coordena o grupo de cantos.
  ‘‘No alto levo a Bíblia/Que é pra todo mundo vê/As mensagens nela escrita, vai mudá o seu viv꒒, cantam em cima da melodia de ‘‘Sereno da Madrugada’’, os seis cantores que, como as duplas sertanejas, se dividem em primeira e segunda voz.
  Para começar a missa, a moda é ‘‘Menino da Porteira’’, que recebe os fiéis com os versos ‘‘Toda vez que eu venho aqui na igreja pra rezar/Também agradeço a Deus por tudo o que ele me dá/Todos juntos num só coro cantando com muito amor/Canto e rezo tão feliz, louvando a nosso Senhor’’.
  O berrante nas mãos de Gustavo Galindo, 15 anos, o mais jovem integrante do grupo, abre caminho para a procissão das oferendas.
  No altar, os fiés colocam tudo o que têm: saúde, família e o trabalho, que sobem ao céu no ritmo de ‘‘Estrada da Vida’’, canção consagrada nas vozes de Milionário e José Rico.
  Na versão religiosa da música, o verso: ‘‘Este é o exemplo da vida/Para quem não quer compreender:/Nós devemos ser o que somos,/Ter aquilo que bem merecer’’ se transforma em ‘‘Este exemplo Jesus deu em vida/Disse ao povo pra compreender:/Nós devemos ser o que somos/Ter aquilo que bem merecer’’.
  Merecimento, esforço ou dom de Deus, Galindo conta que aprendeu a tocar berrante sozinho, instrumento que anuncia os momentos mais importantes da missa.
  ‘‘O meu pai me deu o berrante, que veio do Mato Grosso. Além de gostar do instrumento, o mais importante é poder tocar para Deus’’, comenta Galindo, que também toca viola. O repertório respeita os arranjos originais das músicas de raiz. Olivar e a irmã dele, Analice Maria de Souza se encarregam de adaptar algumas letras.
  ‘‘A maioria das músicas já existe. Tomamos bastante cuidado na seleção das letras originais, que serão adaptadas para as celebrações’’, explica Olivar.
  A saudade da roça pega até quem sempre morou na cidade. Esse é o caso da vocalista e violonista, a bancária Fátima Ferraro, 29 anos, que aprendeu a gostar do gênero sertanejo com o pai acordeonista.
  Na hora de afinar todos os instrumentos, como acordeon, violas, violões e as vozes num grupo com tantas pessoas, Olivar diz que é um pouco difícil, mas com jeitinho tudo acaba dando certo.
  Ele conta que as pessoas ficam emocionadas nas celebrações, algumas até pedem as letras das músicas e outras sugerem novas canções para o repertório litúrgico. É comum a igreja toda cantar junto com os músicos.
  Os integrantes do grupo, além de distrair a saudade da roça, ganham um pontinho no céu - ainda que não cobrem nada pelo trabalho.
  ‘‘Eu já tocava na igreja, antes de participar das missas sertanejas, mas a oportunidade foi um grande presente, além de representar uma expressão de f钒, afirma o violonista, o mestre-de-obras Valter Granado Munhoz, 57 anos.
  No final da missa, os músicos pedem a benção à Padroeira do Paraná, cantando com todo povo ‘‘Santa Virgem do Rocio/Quem te vê e quem te viu, nunca mais esquecerá/Os seus milagres profundos/Que aos filhos deste mundo, vós não cansas de mostrar’’.

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