Jackeline Seglin
De Londrina
Na pele da divertida Filó, a atriz Gorete Milagres se apresenta hoje em Londrina. Em entrevista à Folha2, a humorista fala da carreira e dos desafetos que teria conquistado no meio artístico
Tem faxineira nova no pedaço. Solteirona, virgem, católica, analfabeta, pobre, ingênua e cheia de esperança, ela vem fazendo sucesso na televisão. Não importa o jeito desconjuntado, o lenço amarrado na cabeça e o chinelo de dedo calçado por cima da meia. Ela é dona de um bordão que caiu na boca do povo. O famoso ‘‘Ô Coitado!’ é a marca registrada de Filomena, personagem da atriz Gorete Milagres que se apresenta hoje à noite, no Teatro Marista de Londrina.
Para a atriz, o espetáculo ‘‘Filomena’’ é um ‘‘bate-papo’’ entre a personagem e o público. ‘‘Ela chega no teatro, confunde pessoas e situações, acha que ali vai arrumar um emprego de faxineira e ficar pelo menos uma semana na cidade. Por isso, tem que conversar e conhecer as pessoas.’’
‘‘Filomena’’ foi montado em 1997, com criação, roteiro e direção de Gorete Milagres. A doméstica, nascida em Pau Grande (Minas Gerais) foi à cidade grande para trabalhar em casa de família. De boba, Filó, como é chamada na intimidade, não tem nada. E muito menos Gorete Milagres, mineira de 35 anos que deixou Minas Gerais para fazer carreira em São Paulo, depois de se formar em Artes Cênicas.
Descoberta há pouco mais de um ano pelo humorista Arnaud Rodrigues, talvez ela não imaginasse que em tão pouco tempo estaria conquistando público e fama. Logo depois da estréia da atriz no programa ‘‘A Praça é Nossa’’, do SBT, a Globo tratou de levá-la para seu Núcleo de Shows. Gorete acabou na geladeira.
Sílvio Santos bancou sua volta para o SBT, oferecendo-lhe um programa. Em março, ela estreou um humorístico semanal ao lado de Moacyr Franco. Há poucos dias, Gorete Milagres bateu o pé mais uma vez e conseguiu um programa só dela.
Cansada das críticas e fofocas que estampam as páginas de revistas e jornais brasileiros, a atriz quer mais é aproveitar seu espaço na televisão. Rotulada de ‘‘palpiteira’’ em programas alheios, ela diz que tudo não passa de pura mentira. A intenção da atriz é encerrar o processo de reestruturação do programa e iniciar uma nova fase na televisão.
Gorete Milagres é criadora também de outros personagens, como Zulurdes, a socialite decadente; Custódia, a noiva louca que sonha em se casar; e Zé da Bateia, o bêbado mulherengo. Mas, por enquanto, não tem pra ninguém. Só dá Filó.
Em entrevista por telefone à Folha2, a ex-bancária fala da virada em sua vida, dos problemas enfrentados nas emissoras e na mídia e de seus projetos.
O humor da televisão muitas vezes apela para a malícia, a sacanagem. A Filó corre esse risco?
Estava correndo com a história do ‘‘Ô Coitado’’ com o Moacyr e o Stevie (personagem do programa). A Filomena da ‘‘Praça É Nossa’’ era ingênua. A Filomena do ‘‘Ô Coitado’’ já estava chata, agressiva e às vezes até pornográfica. A idéia é resgatar a pureza da Filomena.
Você nunca enfrentou críticas por utilizar a figura da empregada doméstica?
Não. A figura é bem-aceita pelo público, porque todo mundo conhece uma Filomena na vida. Eu sofro no sentido de hoje eu estar sendo valorizada pela emissora em que trabalho e por ter tido aumento de salário. As pessoas acham que porque eu represento uma pobre, não posso ganhar bem.
Preconceito fora ou dentro da emissora? Ou em todo lugar?
Isso surgiu após o segundo ‘‘não’’ que eu falei para a Globo. Eu acho que tudo é uma coisa bem política.
Você tem sido alvo de muitos comentários na mídia. Tem muito de diz-que-diz? Qual é sua versão dos fatos? Tudo isso começou quando a personagem estourou e a Globo foi atrás de você?
Foi atrás e me botou numa geladeira. Fiquei dois meses fora do ar, sem trabalhar. Eles queriam mudar minha personagem toda e eu não concordei. O Sílvio (Santos) falou ‘‘volta, que tem um programa’’. Voltei para fazer o programa com o Moacyr e com o Guto. Eles tomaram a equipe, admitiram amigos para ser atores e redatores. Começou a piadinha chula, eu representava com ponto no ouvido, recebia o texto em cima da hora... Eu era dona do programa, o bordão era meu e eu não podia falar um ‘‘a’’. No final das contas, quando a Globo me chamou para refazer o contrato antigo, eu pensei em reatar justamente por causa desses problemas todos. E só fiquei no SBT quando o Guto Franco concordou que não ia mudar mais minha personagem. Dali a 15 dias, ele simplesmente abandonou o meu programa.
O que aconteceu?
Criei minha personagem, sou dona dela, tenho tudo isso registrado. Se não fiquei na Globo, não admito que no SBT alguém vá mudar as características da personagem que o público gostou. A partir do momento que eu cobrava qualidade no programa, o Guto achava que era estrelismo. O SBT se manifestou para a revista Veja na semana passada falando que aquilo tudo é falso. Isso foi em função do quê? Quem foi a pessoa que me deu maior apoio para ir para a Rede Globo? Guto Franco. Quando eu não fui, ele fez um pedido para sair do programa. Dizem que ele queria colocar a Guajarina – personagem dele – no meu lugar. O que aconteceu? Quando viu que eu voltei, ele criou um impasse. Fiquei na minha. Com essa história, o Guto saiu, o Moacyr – solidário a ele – saiu também, criou-se um monte de historinhas de que eu queria mudar programa de Hebe e de Gugu. Tudo mentira.
Por que você optou pelo SBT. Não acha que a emissora tem uma produção precária?
Precária para quem admite fazer meia boca. Por exemplo, o Guto e o Moacyr não lutavam para melhorar a qualidade do programa. Hoje eu vejo que é possível sim fazer um programa de qualidade no SBT. Basta ter competência e coragem. Não é porque a empresa é popular que tem que ser um programa meia boca.
Você acha que arriscou ao ficar na emissora?
Acho que não foi risco nenhum. Primeiro porque eu já tinha conquistado meu público, o SBT é uma emissora que tem a cara do meu trabalho e aqui eu sou compreendida. Eu tive uma experiência muito dura na Globo. Eu faço parte da nova geração do humor. Talvez isso tenha ligação com as histórias da velha guarda do SBT estar se manifestando de uma forma meio agressiva. Nunca na minha vida eu convivi com tantos sentimentos estranhos ao mesmo tempo.
Você está disposta a pagar esse preço?
Claro! Eu sou corajosa, forte. Ninguém vai me derrubar. Eu não tenho esse negócio de competir. Estou trazendo novos humoristas para trabalhar comigo, quero mais é contracenar com gente boa, para que a pessoa tenha o prazer de ver meu programa e não mude de canal quando eu sair de cena, como acontecia em ‘‘Ô, Coitado’’.
Quanto a Gorete Milagres está faturando hoje?
Eu não falo pra ninguém quanto estou ganhando. Mas pode ter certeza que é menos que Carlos Alberto, Hebe, Carla Perez, esse povo todo. 100 mil, 120, 150 mil. Cada hora divulgam uma coisa. É tudo especulação.
- ‘‘Filomena’’, monólogo da atriz Gorete Milagres. Hoje, às 20 horas, no Teatro Marista (Rua Cristiano Machado, 241). Texto e direção: Gorete Milagres. Ingressos antecipados na Farmácia Vale Verde da Avenida Leste Oeste. Preço: R$ 15,00. Patrocínio: Forte Vit. Apoio: Prefeitura de Londrina – Secretaria da Cultura, Folha de Londrina/Folha do Paraná.

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