A fauna das ruas
ReproduçãoJoão do Rio foi uma espécie de Oscar Wilde tupiniquimA rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopéia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. Com estas palavras, o escritor João do Rio abre as portas de seu belo e emocionado texto A Rua, escrito em 1905, para desvendar a sedução que a rua exerce nas pessoas.
O texto integra o livro A Alma Encantadora das Ruas de João do Rio publicado originalmente em 1908, uma seleção de suas crônicas publicadas do periódico carioca Gazeta de Notícias. Um verdadeiro retrato de toda fauna e flora da urbanização do Rio de Janeiro, então capital do país. Um retrato do avanço da modernidade sob olhos atentos. Estas crônicas ganham agora uma nova edição, com organização do pesquisador Raúl Antelo, pela Editora Companhia das Letras.
Os textos de João do Rio (1881 - 1921) não são simplesmente crônicas, eles unem três estilos em um único com grande originalidade. Elas unem reportagem jornalística, crônica e literatura. Como jornalista, criou um nova forma de reportagem. Como cronista, não trabalhou com elementos ficcionais, mas reais, personagens de carne e osso que podem ser encontrados nas esquinas. Como escritor, colocou várias especiarias e percepções da literatura. Além de abordar culturas marginalizadas.
A Alma Encantadora das Ruas está, basicamente, dividido em três partes. Na primeira, intitulada O que se vê nas ruas João do Rio escreve sobre velhos cocheiros, blocos de Carnaval, tatuadores que fazem ponto em praças, a cultura das tabuletas (hoje chamadas de placas ou luminosos), músicos e pintores de rua, fumadores de ópio e até mesmo a grande quantidade de orações de todos os tipos de santos impressas em folhetos que passam de mão em mão. Na segunda parte, Três aspectos da miséria, o cronistas enfoca o trabalho dos estivadores, prostitutas, mendigos e os curiosos mineiros da ilha da Conceição (litoral do Rio) que trabalhavam na extração de manganês e carvão em sistema de semi-escravidão. Na terceira parte, Onde às vezes termina a rua, João do Rio relata visitas ao presídio numa mistura de crônica policial e psicológica: as quadrinhas escritas pelos detentos, o dia das visitas, os trancafiados por terem cometidos crimes de amor (O assassino por amor é o único delinquente que confessa o crime), as celas das mulheres.
João do Rio foi uma espécie de Oscar Wilde tupiniquim. Carioca, era um autêntico dandy, mulato e homossexual. Escreveu peças de teatro, romances, traduziu vários livros de Oscar Wilde, mas sua grande popularidade estava em suas crônicas publicadas com regularidade em jornais e revistas do Rio de Janeiro. Sua vida foi curta e conturbada. Morreu dentro de um táxi, saindo da redação do jornal.
Serviço:
A Alma Encantadora das Ruas de João do Rio, Editora Companhia das Letras, organização de Raúl Antelo, 405 páginas, R$ 19,00/Livraria Rosa do Povo.





