As lendas sobre Tim Maia proliferam há anos na boca do povo. Trazer à tona sua controvertida fase esotérica, é uma forma de multiplicá-las. O lançamento do álbum ‘‘Tim Maia Racional Vol. 1’’ (Trama) poderá abastecer o anedotário com novas peripécias protagonizadas pelo cantor. O disco está chegando às lojas pela primeira vez em formato CD, mais de três décadas depois do lançamento original em vinil.
  O álbum foi gravado em 1975, época em que o ‘‘síndico’’ rezava na cartilha da seita Universo em Desencanto, comandada pelo guia espiritual Manoel Jacinto Coelho. Há anos fora de catálogo, o disco foi mais comentado do que ouvido projetando-se até no exterior, onde o inglês David Bowie tentou obter seu licenciamento para regravá-lo na íntegra.
  Tornou-se uma raridade de sebo, comercializado a preços abusivos e pirateado em CDrs. O repertório traz a estranha combinação de música da mais fina qualidade com pregação de convertido. Tim estava mais inspirado do que nunca em suas composições calcadas no soul e no funk. E cantava como poucos. A banda Vitória Régia executava os arranjos com raro suingue e competência.
  Ao vestir a camisa da seita, convenceu os músicos que o acompanhavam a também aderir aos confusos mandamentos. Todos passaram a vestir roupas brancas e a folhear os livros do ‘‘Conhecimento Racional’’. ‘‘Já senti saudade/ Já fiz muita coisa errada/ Já dormi na rua/ Já pedi ajuda/ Mas lendo atingi o bom senso: a Imunização Racional’’ – canta ele em ‘‘Bom Senso’’.
  Tim convida reiteradamente o ouvinte a ler o livro. A maioria das letras consiste de propaganda deslavada para recrutar novos adeptos ao rebanho. A exceção fica por conta de ‘‘Imunização Racional (Que Beleza)’’, que Marisa Monte já pensou em gravar. O período de adesão mística foi marcado por uma guinada radical na vida do cantor.
  Famoso por reclamar ao microfone e ‘‘dar bolo’’ em shows, Tim parecia andar na linha e trocado a vida mundana – regada a sexo, drogas e boemia – pela dedicação integral ao desenvolvimento do espírito e ao desapego material. O conceito foi espalhado em dois álbuns. O que chega agora ao público é o primeiro volume. O volume 2, lançado em 1976, deve sair até o final do ano.
  Na época, ambos foram lançados de forma independente pela gravadora do próprio artista, a Seroma (junção das iniciais de seu nome verdadeiro, Sebastião Rodrigues Maia). A receptividade foi negativa. Tanto público como a crítica ignoraram as mensagens, provocando um encalhe das cópias. Não demorou para o cantor carioca se desiludir com seu guru, largar a doutrina e voltar à antiga rotina.
  Passou então a renegar os dois álbuns, a ponto de destruir as matrizes das gravações. A reedição da Trama exigiu um trabalho cuidadoso de restauração do aúdio a partir de uma cópia de vinil encaminhada pela família do artista. Deixando a verborragia de pastor de lado, é possível encarar o disco relaxadamente, atento apenas à sonoridade black ali documentada. Impossível resistir à potência que Tim arranca da banda e extrai de sua própria garganta.


SERVIÇO:

- Disco ‘‘Tim Maia Racional Vol. 1’’. Gravadora Trama. Preço sugerido: R$ 35,00.

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