A FARSA DE INÊS PEREIRA
Simone Mattos
A adaptação de uma das mais importantes peças do dramaturgo português Gil Vicente, A Farsa de Inês Pereira, estreiou em Curitiba neste final de semana. Na opinião do produtor e ator da montagem, Eddie Moraez, o escritor é o verdadeiro pai da dramaturgia de língua portuguesa. Ele é o nosso Shakespeare, compara. Moraez critica o fato da obra de Vicente ser muito pouco lembrada e montada raras vezes no Brasil.
Este foi um dos motivos que o levou a estudar e pesquisar a carreira literária de Gil Vicente, que viveu entre 1502 e 1536, em Lisboa. Escolhi Inês para encenar por ser um dos textos mais abrangentes deixados por ele, justifica. A peça é considerada, dramaticamente, a mais perfeita e completa das suas obras
O texto, apesar de ter sido escrito há quase 500 anos, mantém A Farsa de Inês Pereira um espetáculo atual, que questiona os papéis dos homens e das mulheres na sociedade. São temas que ainda vão nos acompanhar por anos, diz Moraez.
Apesar de ser um pouco feminista, o produtor avisa que o espetáculo deverá agradar aos dois sexos, por abordar questões comuns a todos. Nele se encontram os mais expressivos tipos cômicos, que criticam a igreja, o casamento e outras instituições, colocando em evidência os defeitos humanos.
A protagonista Inês é uma moça sonhadora, que se apaixona por um coronel e acaba se casando com ele. O marido entretanto, passa a maltratá-la, trancando-a em casa. Mais tarde ele morre e a moça acaba se casando com um antigo pretendente.
A adaptação do espetáculo, feita por Ivam Cabral, não alterou muito o texto original de Vicente. A maior mudança foi trazer o cenário de Lisboa em 1523, para uma cidade no interior do Brasil, entre os anos 1940 e 1950. Uma cena em que um escudeiro lutava com mouros se transformou na batalha entre um fazendeiro de café e um sem-terra, conta o produtor do espetáculo.
O resultado final foi um musical acaipirado, com texto rimado, sanfoneira em cena e músicas tradicionais do folclore brasileiro, de artistas como Tonico e Tinoco ou Torrinha e Canhotinho, cantadas pelos próprios atores.
Outra característica do espetáculo, que conta com direção geral de Rodolfo Garcia Vasquez e interpretação do grupo Os Satyros, é a divisão em três atos, ou três jornadas, como costumava dizer Gil Vicente.
Em cada entrada, os atores assumem personagens diferentes, independente do sexo. Assim, a própria Inês é interpretada por três atores diferentes, conta Moraez. Segundo ele, isto não deixa o público confuso já que os figurinos são bem característicos.
A temporada de A Farsa de Inês Pereira prossegue até o dia 1º de agosto na Casa Vermelha (Largo da Ordem), de quinta a sábado às 21 horas e no domingo às 19 horas. O preço dos ingressos é R$ 10,00.Considerado o William Shakespeare da dramaturgia de língua portuguesa, Gil Vicente está sendo relembrado em Curitiba, pelo grupo Os Sátyros
Roberto ReitembachRoberto ReitembachMazé Portugal, Eddie Moraez e Adolfo Pimentel estão no elenco da peça, que entra em cartaz hoje, na Casa Vermelha





