Quinze novos atores londrinenses, formandos da Escola Municipal de Teatro da Funcart, arriscam-se em uma aventura musical no espetáculo ‘‘Cabaret Munchausen’’, em cartaz até o dia 28 de março. Pode-se considerar que esta montagem inaugurou uma tendência nos espetáculos da Escola, com uma linguagem teatral despojada visualmente, sem abandonar o refinamento estético.
É inegável que na trajetória de inúmeros espetáculos teatrais na cidade, sempre haverá vestígios das diferentes linguagens apresentadas no Festival Internacional de Teatro de Londrina. Uma transferência viva, além das fronteiras. Outro aspecto a ser ressaltado, é a inexistência de uma escola em Londrina com uma história tradicional a ser relembrada e reverenciada. Tudo resvala na novidade, tudo precisa ser reinventado.
Os espetáculos de escolas tradicionais, como a Escola de Artes Dramáticas de São Paulo, são acadêmicos, tanto na escolha dos textos, como na linguagem cênica. É até uma prerrogativa, nomes antológicos passaram pela EAD e fizeram história no teatro brasileiro. O Tablado, no Rio de Janeiro, fundado e dirigido por Maria Clara Machado, mantém a mesma proposta acadêmica na realização dos espetáculos.
A Escola Municipal de Teatro, com ‘‘Alice Através do Espelho’’ e ‘‘Cabaret Munchausen’’, apresentou textos adaptados, se valeu da literatura consagrada como fonte de inspiração para uma proposta dramatúrgica. Nessas duas montagens, salpicadas de bom humor, a fantasia foi valorizada. Também recorreu-se à utilização de espaços cênicos improvisados e alternativos.
No território mágico do circo, o diretor Paulo de Moraes optou pelo uso de múltiplos espaços, o tradicional palco italiano, o proscênio, dois compactos palcos paralelos, além de os atores também atuarem no espaço destinado à platéia. É preciso destacar que nessas duas peças, a mesma equipe se reuniu, entre eles, Paulo de Moraes, Maurício Arruda Mendonça, Gelson Amaral, Marcos Martins e Neli Belotti.
Com ‘‘Cabaret Munchausen’’, texto de Maurício Mendonça, os 15 formandos saíram da escola para contar histórias de um contador de histórias, numa explícita metalinguagem. Ainda existem lugares para fantasiar? Essa é a proposta do autor, ao recorrer aos delírios do maior mentiroso do mundo, herói e conquistador amoroso que lutou contra os turcos em 1740.
O texto de Maurício Arruda Mendonça apresenta uma narrativa não linear, mas numa linguagem completamente acessível. Pode-se ressaltar que Mendonça fez uma aposta na sensualidade, ambientando o embate entre o Barão e Doktor Mésmer num cabaret. Com isso, o diretor Paulo de Moraes reforçou ainda mais o sex-appeal dos jovens atores.
Se em ‘‘Alice Através do Espelho’’, espetáculo montado com a primeira turma, agradou pela inventividade e surpresas cênicas, ‘‘Cabaret’’ não atingiu a mesma empatia. Apesar do embasamento teórico, oficinas, laboratórios e a prática da montagem do espetáculo, o elenco ainda precisa rebolar um bocado para contar com precisão as lorotas do barão Karl Friedrich Hieronymus von Munchausen. Mesmo esbanjando energia cena após cena, a atmosfera pueril prevalece.
A segunda metade do espetáculo é mais dinâmica. Quem proporciona uma viagem mais delirante ao mundo do barão é Doktor Mésmer, personagem magnetizante interpretado com sensibilidade pela atriz Priscilla Bergamasco. A desenvoltura cênica da atriz valorizou o texto de Mendonça, excitando a audiência.
Com exceção de Priscilla, o jovem elenco se caracteriza pelo uso inadequado da voz, pelos gestos pesados, que exigem mais esforço físico. Quando é preciso cantar, cantam mal. Quando precisam se valer da técnica para dar sonoras gargalhadas, apelam para a canastrice, se deleitando em estereótipos. Aparar essas arestas, sem dúvida, irá tornar o espetáculo mais envolvente, e assim, as histórias do Barão Munchausen podem extrapolar os domínios da lona do circo.Cena de ‘‘Cabaret Munchausen’’: espetáculo fica em cartaz até o dia 28, nos fins de semanaFrancelino França

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