A fantasia está solta no salão
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de fevereiro de 1999
Antônio Mariano Júnior 
Pode, pode tudo! Quer dizer, pode quase tudo. E como tudo é uma questão de ponto de vista, pode: fingir que samba no pé quando no máximo o suingue provém das marchas escolares de 7 de setembro; abraçar a colega ou o colega ou sei-lá-quem-é-acabei-de-conhecer e dar voltar no salão até ficar zonzo. Também vale: levantar os dedos indicadores e gestualizar toda a vocação para a coisa; vale aquendar (pra quem não entende, botar um bom reparo) e comer com olhos determinadas partes de corpos alheios; interpretar com afetação natural ou enrustida a tal cabeleira do Zezé; fazer de conta que o mundo acaba amanhã e, portanto, acreditar nessa conversa mole e beijar a boca de quem não devia. Olelê, Olalá, pega no Ganzé, pega no Ganzá... Tudo, bi, tudo!! O quê?! Ora, o Carnaval consente mensagens cifradas, olhares atravessados, códigos manjados, sutis permissividades.
E o calorão a defumar lentamente os foliões. Quanto riso, quanta alegria, quantos quilômetros a serem percorridos salão afora. Disse o rei: soltai a franga, botai para fora toda alegria encalacrada, tirai a fantasia e colocai a fantasia. De rei ou de pirata ou jardineira pra tudo se acabar na quarta-feira. Até que as cinzas cheguem, as águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar e lá-lá-lá-lá-lá-lá e mais lá-lá-lá. Bafo de jibóia, chiclete de hortelã, cangote quente... O bom do Carnaval de salão ou de rua até é que diferentes espécies convivem harmoniosamente (bem, às vezes o pau tora) no mesmo ecossistema. Fauna e flora superlativamente desvairadas. Leis e regras, mínimas. Se máximas, fáceis de serem subvertidas. E pega no ganzé, pega no ganzá...
Entre odaliscas, melindrosas, sheiks, noivinhas de cinta-liga à mostra, presidiários, havaianas, ciganos, mulheres de bigodes e pêlos nas pernas - sem contar nos blocos com homens de camisa do mesmo tecido e estampa que o vestido da esposa - instaura-se essa ópera do crioulo doido em quatro dias. Que só os personagens, só eles, sabem fazer, desfazer e refazer dia após dia. A impressão: quarta-feira nunca vai chegar. A constatação: quarta-feira vai chegar, menos na Bahia. O jeito: fazer o sinal da cruz e... seja o que Deus quiser desse dia em diante.


