A família à beira do abismo
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sexta-feira, 07 de março de 1997
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
ReproduçãoMichael Cunningham: Viver em família é natural.
Até mesmo um homossexual sente falta delaFamília é coisa complicada. Parece um bando de sorridentes macacos dividindo a mesma árvore. Os problemas começam quando nem todos estão em seus próprios galhos, mas percorrendo galhos alheios, ou mesmo considerando-se os donos da árvore. A mãe acredita que deve cuidar dos galhos dos filhos, o pai acha que os filhos não estão respeitando os galhos em que nasceram, e os filhos sempre de olho nos galhos de outras árvores.
Qualquer fábula, real ou ficcional, revela a família como minutos de tempestade seguidos de segundos de bonança com cada membro marcando em seu próprio relógio de significados o passar do tempo.
Muitos são os escritores que colocaram a nu o caos das relações familiares, mas poucos o fizeram levando em conta a estrutura emocional da família dos tempos atuais. O norte-americano Michael Cunningham é um dos poucos que elegeram como temática para sua literatura a família diante das transformações comportamentais das três últimas décadas. Famílias tradicionais entrando em colapso e jovens procurando novas formas de relações familiares são a base de seu argumento narrativo. Talvez este seja o principal fator da crescente popularidade de suas obras, mesmo trabalhando basicamente com personagens outsiders.
A história Seu mais recente romance, Laços de Sangue, lançado pela Editora Companhia das Letras, narra a história de uma família, de avô ao neto, em sua ascensão material e queda emocional. Mary e Constantine possuem três filhos, Susan, Billy e Zoe, numa pequena casa de subúrbio. Susan casa-se para se livrar do assédio sexual do pai, Billy assume sua homossexualidade para o constrangimento geral, Zoe abusa no uso de drogas, tem um filho de pai desconhecido e ainda se descobre soro positivo. Uma família aparentemente atípica, mas completamente normal, enfrentando todas as tempestades com cada um procurando o próprio salva-vidas.
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Personagens desajustados são uma constante nos romances de Michel Cunningham. Seu livro anterior, Uma Casa no Fim do Mundo, publicado pela Editora Companhia das Letras em 1994, conta a história de três jovens que resolvem criar uma nova família numa casa distante. Uma moça hetero, um moço bi e outro homo, estabelecem uma relação familiar numa tentativa de felicidade.
Se em Uma Cena no Fim do Mundo Cunningham coloca jovens buscando formar um novo tipo de família, em Laços de Sangue coloca uma família tradicional sofrendo processo de degradação. Ambas as famílias acabam em fracasso, mas deixam claro que todos necessitam de uma família. Cunningham: Viver em família é natural. Até mesmo um homossexual sente falta dela. Laços de Sangue foi escrito para provar que não existe diferença entre uma família tradicional de uma família de outsiders. O melhor exemplo disto será em Cassandra, personagem do romance que exerce o real papel de mãe, a mãe compreensiva e receptiva, aquela que não tumultua a vida dos filhos. Detalhe: Cassandra é uma autêntica drag queen.
Vírus presente Aids é um elemento sempre presente na obra de Michael Cunningham. Sempre há personagens aidéticos convivendo com crianças. Personagens em estado terminal brincando com crianças, assistindo desenho animado com crianças no colo. Vida e morte se relacionando sem maiores problemas, a desmitificação do fantasma do vírus.
Militante em entidades de assistência a portadores do HIV, Cunningham define Laços de Sangue como um épico escrito durante a epidemia da Aids. Visitando doentes em hospitais, percebeu que estas pessoas que estavam com os dias contados não liam quase nada: Quando escrevi o romance procurava um tipo de livro que eu pudesse levar para as pessoas em um hospital, um livro que eu pudesse entregar para alguém que não fosse viver por muito tempo. Entregar a essas pessoas coisas desmedidas e verdadeiras.
q Uma Casa no Fim do Mundo - de Michael Cunningham, Editora Companhia das Letras, tradução de Isa Mara Lando, 348 páginas, R$ 26,50.
q Laços de Sangue - de Michael Cunningham, Editora Companhia das Letras, tradução de Anna Olga de Barros Barreto, 457 páginas, R$ 31,00/Livraria Bom Livro.


