A fama depois dos 50
''Um dia eu passava na Rua dos Gusmões, em São Paulo, e olhei para a vitrine de uma livraria editora. Uma vitrine mal-arrumada, com os livros jogados de qualquer jeito. Era um prédio antigo. Cheguei na porta e vi uma escada com um corrimão convidativo para subir. Subi, e na porta dizia: 'Entre Sem Bater'. Por trás de uma mesa encontrei um senhor a quem entreguei os originais das minhas poesias, e a resposta foi igual a todas que já tinha recebido de outras editoras: 'Venha daqui a um mês'. Fui. O senhor da José Olympio meteu a mão na gaveta e, quando eu pensava que ia me devolver os originais, ele me mostrou a orelha da capa do livro já impressa''.
Eram os ''Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais'' primeiro livro publicado da escritora Cora Coralina, aos 76 anos. Publicou ainda duas obras ''Meu livro de Cordel'' e ''Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha''. Cora Coralina (pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas) recebeu aos 94 anos o prêmio Juca Pato, concedido pela União Brasileira dos escritores, como intelectual do ano. Faleceu em Goiânia em abril de 1985, com quase 96 anos.
''Trabalhei muito tempo como empregada doméstica sem faltar um dia. Pedi férias porque ia estrear um show. Os jornais já falavam de mim como uma revelação. A patroa ficou tão aborrecida com meu sucesso que preferiu que eu fosse embora de vez. Na estréia, eu tomei tanto conhaque pra ganhar coragem que todo final de ano a fábrica me manda uma caixa''. O depoimento da cantora Clementina de Jesus, outra figura importante da cultura brasileira, ilustra a força de vontade para superar as dificuldades no mundo das artes quando se dá o primeiro passo no outono da vida. Clementina de Jesus começou a cantar para o público aos 55 anos de idade, no show ''Rosa de Ouro'', em 1965, no Rio de Janeiro. Até falecer em 1987, Quelé foi soberana do partido alto. Cantou desde ponto de macumba até a Marselhesa (Hino Nacional da França).
''Quando eu me aposentei da Marinha, em 1955, depois de ter servido durante 25 anos, voltei para Palmeira dos Índios, minha terra natal, em Alagoas. Tinha lá um grupo de teatro amador e comecei a fazer parte dele. Tinha lá também um padre holandês com quem a gente fazia espetáculos para crianças, numa reserva de índios, com fins beneficentes. Foi quando Nelson Pereira dos Santos lá chegou para filmar ''Vidas Secas'', em 1961 e me convidou para fazer o papel de fazendeiro. Aí o Roberto Farias me chamou para fazer ''Selva Trágica''. Os irmãos Santos Pereira para fazer ''Grandes Sertões''. Roberto Santos para ''Augusto Matraga''. Glauber para fazer ''Terra em Transe''. Não parei mais''. O ator Jofre Soares era um palhaço num circo com crianças indígenas quando Nelson Pereira dos Santos o encontrou. Estava no limiar dos 50 anos. Fez uma média de três filmes por ano e seu trabalho estava intimamente ligado à renovação do cinema brasileiro até sua morte. Seu último trabalho em cinema foi ao lado de Vanda Lacerda num dos curtas do projeto ''Felicidade é...'', em 1999.(F.F.)





