O Festival de Woodstock aconteceu nos Estados Unidos um mês depois do homem ter pisado na Lua, de 15 a 17 de agosto de 1969. A cerimônia de sagração da contracultura lançaria sementes aos quatro ventos, que anos depois chegaram em Cambé (a 13 km a oeste de Londrina). O lendário festival ganhou uma reedição num local paradisíaco, com direito à cascata para batizar a celebração do rock and roll.
O Woodstock local recebeu o nome de 1º Concerto de Rock Brasil, mas ficou tatuado na mente dos participantes como Colher de Chá. O show de rock aconteceu no Clube Recreativo Cascata, na BR-369, antes de ser asfaltada, próximo ao Túnis Motel. O ingresso custava Cr$ 5,00, preço equivalente a uma matinê de cinema. Mais de 5 mil pessoas celebraram a paz e a música.
O pecado ainda não havia sido inventado. Cambé e San Francisco exercendo a mesma atração do estar junto (be-in). Em nome do poder da flor, grupos como ‘‘Os Mutantes’’, ‘‘Joelho de Porco’’ e o cantor ‘‘Tony Osanah’’ se tornaram oráculos de cerimônias pagãs do estar junto. Rolava um movimento de busca de identidade nacional. A cultura underground procurava, entre tantos compromissos, aportuguesar as letras das músicas, por isso a escolha dessas feras de longas cabeleiras para o show em Cambé. Também comeu poeira da terra vermelha um jovem inglês desconhecido na época. O franzino Ritchie, que atravessou a barreira do sucesso com ‘‘Menina Veneno’’, e vibrou com as bandas que se apresentaram no local.
Os cabeludos desaguaram no Clube Recreativo Cascata, no décimo primeiro dia do mês de fevereiro de 1973, aglomerados num campo de futebol coberto de palha de arroz. A falta de água potável e a espessa poeira de terra-roxa nem ouriçaram os hipongas. O ideal hippie do Colher de Chá almejava a unificação na poesia, literatura, artes plásticas e teatro. A nova visão ‘‘power flower’’ era propalada pela revista Rolling Stones (versão americana e nacional), e juntamente com as diretrizes do zen budismo, influenciaram o potencial criativo e comportamental daqueles que viveram aqueles dias de fevereiro. Essa cultura unificada foi reunida em Cambé num típico verão do amor.
Os Mutantes, descartados da presença da musa Rita Lee, com Dinho (bateria), Liminha (base), Arnaldo Batista (órgão) e Sérgio Batista (solo), cantaram seus maiores sucessos, se apresentando com uma aparelhagem de 5 mil watts. Muitos que participaram daquela data histórica, por mais que se esforcem, não conseguem lembrar o repertório. O escritor Carlos Callado incluiu na biografia do grupo, ‘‘A Divina Comédia dos Mutantes’’ (Editora 34), dados sobre a apresentação em Cambé, com direito a fotos da época.
Um dos organizadores do Colher de Chá, o artista plástico Wilson Vidotto, hoje com 52 anos, dá notícias dos hippies que circularam pela região. ‘‘Alguns viviam em comunidade, outros rodando, vivendo como mochileiros, enquanto existia carona. Muitos trabalharam com artesanato’’. Outros participantes conseguiram manter esse tom de informalidade até 1980.
O ideal hippie feneceu, segundo Wilson Vidotto, como cultura coletiva. Esse período mágico instigava a criação artística e era ponte para contestação de valores. ‘‘Persiste o ideal do ponto de vista individual’’, diz o remanescente. A utopia dessa geração não deixava lugar para injustiças sociais e opressão. Analisando esse período, o artista plástico constata a sociedade mais intolerante, sem poder exercer a mesma liberdade como nos anos 70.
Na época, rodava de mão em mão o jornal mimeografado ‘‘Subterrâneo’’ que advogava em seu terceiro número: ‘‘a mente humana se condiciona ao sistema, negando a sua condição natural de liberdade. (...) Aquele que está livre mentalmente, está pronto a aderir, a se apegar, a amar’’.
O Festival de Cambé aconteceu em pleno período ditatorial. Para a realização do evento, acordos precisaram ser feitos com a Polícia Federal. O Recanto Cascata se transformou numa zona neutra naquele dia. Pelo acordo, não poderia ser preso quem estava fumando machonha. Apenas o tráfico seria coibido. Foram destacadas quatro duplas de ‘‘Cosme e Damião’’ (guardas) fardados para garantir a ordem.
Mas se o primeiro evento pôde ser considerado um sucesso, por que não aconteceu o 2º Colher de Chá? Na época, a Folha veiculou o lamento dos organizadores, sob o título de ‘‘Intolerância acaba com o Festival de Verão’’. A sociedade local argumentava que o encontro de ‘‘doidos’’ atrapalhava. De alguma forma, o sonho acabou.
Os conturbados anos 70 decantaram questões de protestos, tendo na linha de frente estudantes e intelectuais. A professora universitária Linda Bulik, nesse período atuando como repórter da Folha, vivenciou esse momento. ‘‘Havia uma inquietação estética e artística em Londrina. A cidade tinha uma aspiração cultural’’, rememora.
Nomes como Robson Borba, Délio César, Domingos Pellegrini, Neusa Pinheiro, Itamar Assunção, Alcides Carvalho, e tantos outros, formaram uma geração de personalidades atuantes no setor cultural, cujos ideais reverberam no modo de organização cultural da cidade até hoje. ‘‘Uma das bandeiras de luta era dar à cidade um projeto cultural concreto’’, atesta Linda Bulik.
Vasculhando suas reminiscências de jovem profissional, que estava fazendo a cobertura e vivendo intensamente o momento político e cultural da época, Linda denomina o Colher de Chá como um evento extremamente marcante e forte para essa geração. A reedição de Woodstock estava antenada com as tendências da época.
Depois de 28 anos, os anseios dos jovens migraram para um lugar ao sol no mercado de trabalho (nos anos 70 esse não era o problema). Na época, a palavra de ordem dos jovens era ecoar um sonoro e coletivo NÃO.

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