O que os olhos não sentem o coração não vê. O que os olhos não vêem o coração não sente. O que o coração vê os olhos não mentem. O que os olhos não mentem o coração não sente. Combinações desse tipo podem se prolongar até o infinito através da artimanhas da lógica. Independente das combinações verbais, a beleza permanece intocável.
Na verdade ainda não conseguimos apreender uma real dimensão do poder da beleza. A multiplicidade de suas formas, invariavelmente determinadas pelos dedos da cultura, sempre recai sobre a figura feminina. A beleza também estaria atrelada à juventude, a um imaginário onde a velhice não é bem vinda.
Isso pode ser testemunhado em ‘‘Beleza do Século’’, livro que apresenta as transformações do ideal de beleza feminina no decorrer de todo o século 20. Lançado pela Cosac & Naify Edições, a obra é formada por textos de Dorothy Schefer Faux, Nathalie Chahine, Catherine Jazdzewski, Marie-Pierre Lannelongue, Françoise Mohrt, Fabienne Rousso e Francine Vormese, todas jornalistas francesas especializadas em moda. As centenas de imagens e fotografias que compõem o volume dão um caráter ilustrativo aos estilos de beleza apresentados.
‘‘Beleza do Século’’ não pretende realizar nenhuma análise mais profunda sobre o tema, apenas oferecer informações básicas e superficiais sobre o assunto. O grande peso do livro recai em suas imagens fotográficas que oferecem ao leitor a possibilidade de uma leitura particular das transformações da imagem da beleza feminina através dos tempos.
No volume, primeiramente as autoras apresentam um breve painel da estética da mulher da antiguidade ao século 19. O século 20 é apresentado por décadas, de maneira mais detalhada. Isso porque foi nesse período que a moda assumiu a proporção que conhecemos hoje. O papel do cinema e das artes são destacados. Numa atitude politicamente correta, as autoras também realizam um incursão na chamada ‘‘beleza étnica’’, onde são abordadas as mulheres orientais, africanas, asiáticas, indianas e latinas. O Brasil aparece apenas com a estética dos índios Bororos e Kaduveus, pinçados do trabalho do antropólogo Claude Lévi-Strauss.
Embora focalize muito mais a moda do que a beleza propriamente dita, ‘‘Beleza do Século’’ não deposita atenção sobre as vestimentas, mas sim sobre os cabelos, cosméticos e perfumes. E a pele como uma obsessão das mulheres há milênios. As mulheres do Egito Antigo, por exemplo, para amaciar a pele aplicavam uma combinação de ovo de avestruz batido com leite, argila e azeite. Já as mulheres atuais contam com aplicações de colágeno.
‘‘Beleza do Século’’ deixa claro que a beleza é sinônimo de juventude. As mulheres, independente da idade, tem o ‘‘dever’’ de parecerem jovens. A velhice tornou-se um ofensa, um verdadeiro crime. Todo o sistema de moda reforça essa ideal. Como a juventude é algo efêmero, esse processo leva a crer que a beleza também é efêmera. Assim, o apego ao efêmero tornou-se virtude.
O livro publicado pela Cosac & Naify não se propõe fazer nenhuma análise mais profunda sobre o tema, apenas contar algumas curiosidades das transformações culturais femininas. E se a beleza tornou-se, definitivamente, fundamental, nada mais natural saber como as mulheres querem parecer: simplesmente desejáveis. Justamente aquilo que os homens desejam.
Beleza do Século – Textos de Nathalie Chahine, Catherine Jazdzewski, Marie-Pierre Lannelongue, Françoise Mohrt, Fabienne Rousso e Francine Vormese, introdução de Dorothy Schefer Faux, Cosac & Naify Edições, tradução de Paulo Neves, ilustrado, 400 páginas, R$ 53,00.

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