A face boêmia de Tiradentes
Até ser rodado Tiradentes - filme que abre o 3º Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba - o homem que emprestou o nome à produção ficou na mente dos brasileiros como uma pessoa sem passado. O máximo que se sabe é de sua revolta contra a sangria dos portugueses, o movimento dos Inconfidentes, a traição, a forca e o esquartejamento.
Aquilo que a história omite é o que o roteirista e diretor, Oswaldo Caldeira, privilegia com sua câmera, compondo o trabalho. Pela lente do cineasta Tiradentes apresenta-se como um homem inquieto, aventureiro, corajoso e grande namorador. O ator Humberto Martins - aquele do dorso nu nas novelas da TV Globo - vive o herói.
Quem disse que Joaquim José da Silva Xavier foi, ao longo de sua vida, um homem sempre às voltas com a política, cuja última imagem é a do aniquilamento? Antes de entrar na luta dos impostos o cidadão deu vazão à sua alma sedenta por aventuras. No chamado Caminho Novo, por exemplo, caçava bandidos; estava nas equipes que abriam estradas no sertão; foi pesquisar minérios e criou projetos de águas e novos portos para o Rio de Janeiro - melhorias que seriam adotadas poucos anos após a sua morte.
Por fim, foi soldado. Diz-se que impetuoso, forte, corajoso. E à margem dessas características, tinha também seu lado de boêmio e conquistador. Tiradentes nunca deixou de frequentar as tabernas e as prostitutas. Assim como arrancou suspiros femininos e fez promessas de amor não cumpridas, também teve que engolir a revolta da jovem esposa. Não aguentando mais as infidelidades do marido, ela o trocou por outro.
Essa personagem múltipla e enriquecedora, que foi parar no patíbulo, viveu uma vida intensa que a história nem sempre se detém em avaliar. O filme Tiradentes, segundo seus realizadores, quer justamente mostrar que os homens transformados em ícones, eram tão-somente seres humanos.
Os amigos o acompanhavam. Alvarenga era um bon vivant sonhador, andava em busca de ouro, não tinha pudores em emprestar e não pagar. Às pessoas a quem devia, justificava-se: Já fizeram isso comigo e não morri. Gonzaga, pelo contrário, trazia em si a melancolia, sujeito torturado que ambicionava mudar o mundo e sonhava com Marília, a musa de seus poemas.
Sob o tapete da historiografia oficial ficou através dos tempos o casamento de Cláudio Manoel da Costa com uma negra. Foi uma ligação que durou décadas; o casal teve uma prole numerosa.
Onde se encontravam os rebeldes? Na casa de Macedo, homem muito rico, dono de um dos maiores palacetes da colônia, a Casa dos Contos. Ajudou a financiar a conspiração, usou da influência e quando estourou o escândalo, saiu do episódio incólume.
Nem sequer foi chamado para depor. Porém, quando Cláudio Manoel foi preso em sua própria casa e começou a indicar nomes, foi assassinado misteriosamente. O milionário ficou sendo o principal suspeito. Como se vê, Tiradentes mostra um Brasil do século 18 que se repete no século 20. Assassinatos, prisões e reverências aos poderosos não são misérias apenas de nossos dias.(Z.C.L.)





