A face assassina do Everest
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de setembro de 1998
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Em 1996, o monte Everest recebeu 16 expedições de alpinistas sedentos por colocar os pés no ponto mais alto do mundo. No final da temporada, onze deles haviam morrido. Alguns sobreviventes tiveram membros amputados em decorrência de necrose por congelamento. A tragédia virou notícia mundial.
Duas das expedições eram comerciais, levavam clientes turísticos para o pico do Everest. A grande maioria das vítimas pertenciam a estas expedições, ambas organizadas por experientes alpinistas: a Adventure Consultants, chefiada por Rob Hall, e a Mountain Madness, chefiada por Scott Fischer. Os dois não voltaram com vida da escalada. Cada cliente chegou a pagar 65 mil dólares pela aventura.
A tragédia foi relatada pelo jornalista e alpinista norte-americano Jon Krakauer no livro No Ar Rarefeito - Um relato da tragédia no Everest em 1996 publicado pela Editora Companhia das Letras no ano passado. Krakauer integrava a expedição guiada por Scott Fischer. Seu objetivo era realizar um reportagem sobre a comercialização da aventura da escalada do Everest.
Entre as várias questões levantadas por Jon Krakauser em No Ar Rarafeito, está o descuido e a negligência do alpinista russo Anatoli Boukreev, guia da expedição Mountain Madness.
Anatoli Boukreev, deprimido com os fatos e as acusações de Krakauer resolveu dar sua versão dos fatos. Com a participação do escritor norte-americano G. Weston De Walt, escreveu o livro A Escalada - A verdadeira história da tragédia no Everest que a Editora 34 acaba de lançar.
O incidente foi causado por um tempestade inesperada que caiu sobre os montanhistas das duas expedições logo após deixarem o pico em caminho de volta. Atravessavam a chamada Zona da Morte (elevações acima de 8 mil metros) onde a falta de oxigênio e a baixa temperatura podem provocar a morte.
Essa travessia é relata em A Escaldada da seguinte forma: Na luta pelo sobrevivência, eles não enxergavam nada além de um metro de distância. Às vezes havia corda para segurá-los e servir de guia. Os medidores de suas garrafas de oxigênio caíram para zero e a extrema confusão causada pelo hipoxia começou a dominar as mentes mais racionais. A falta de sensibilidade nos membros, pressagiando a necrose por congelamento, fazia com que se encarasse a amputação não como algo remoto, mas como uma possibilidade concreta. Às cegas, em meio ao estridente furor da tempestade, os alpinistas começaram a barganhar. Meus dedos pela minha vida? É justo.


