A face animal do urbano
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de junho de 1998
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Existe um lugar antigeográfico em que vigília e sono acasalam-se. Não há ritual nupcial propriamente dito, mas uma sensação que ocorre no limiar entre sonho e lucidez. Algo como estar supostamente acordado e, ao mesmo tempo, supostamente sonhando. Um espaço intermediário onde o irreal torna-se tão sensato quanto o real e o real tão insensato quanto o irreal.
ReproduçãoAlguns escritores contemporâneos mergulharam de cabeça neste universo antigeográfico, entraram no tempo psíquico de seus personagens para criar uma aventura, uma antiepopéia de seres humanos cerceados por fatores sociais e libertos de fatores emocionais.
Esta antiepopéia seria uma forma de sobrevivência num mundo desumano sem perder a própria humanidade. Seria a sobrevivência emocional nas situações mais aterradoras. Seria a preservação da verdade como o único bem disponível. Seria pensar em justiça sem levar em conta as próprias dores. Seria amar e ser amado sem peso de valores.
Entre estes escritores está Michael Ondaatje. Nascido em 1943 no Sri Lanka, Ondaatje mudou-se ainda criança para a Inglaterra e, na sequência, para o Canadá, onde vive até hoje. Ficou conhecido mundialmente pelo romance O Paciente Inglês, transformado em filme e premiado com vários Oscars. Antes de ganhar as telas, o romance havia recebido, em 1992, o prêmio Brooker Prize de língua inglesa.
O Paciente Inglês ganhou sua edição brasileira no ano passado pelas mãos da Editora 34. Agora a mesma editora está lançando um novo romance de Ondaatje, Na Pele de um Leão (In the skin of on lion). A obra, publicada originalmente em 1987, foi escrita antes de O Paciente Inglês e, de certa forma, antecipa alguns personagens.
Em Na Pele de um Leão Ondaatje espalha fragmentos da trama para posteriormente, lentamente, traçar a história. Apresenta a vida os personagens isoladamente para alinhavar, no decorrer da narrativa, conexões entre elas. Não utiliza uma teia simétrica. Como uma série de retratos 3x4 isolados que uma câmara vai fotografando sem pressa, até chegar até ao retrato geral, onde todos os 3x4 aparecem numa panorâmica.
Ambientada no início do século, a história não possui uma linearidade definida. A única linha definida é a memória temporal de cada personagem, memória esta facilmente suplantada pelo caótico ritmo psíquico do ser humano de carne e osso.
O personagem principal, Patrick Lewis, criado nas florestas do interior do Canadá, parte para ganhar a vida na cidade grande, Toronto. A cidade vive um alucinado processo de urbanização, utilizando mão-de-obra barata de imigrantes europeus, em especial macedônios. Patrick passa por vários empregos, um mais pesado que outro, contentando-se com míseros salários. Ao conhecer e amar uma revolucionária, lentamente vai percebendo que a existência da engrenagem, da exploração como um todo. Vive o amor de duas mulheres, duas atrizes que escorrem pelos vãos de seus dedos.
Embora tenha como pano de fundo o drama da sumária exploração de trabalhadores para a construção do Canadá, os elementos narrativos expressos por Ondaatje são literários e não meramente políticos ou sociais. O foco central do escritor é o sentimento do ser humano num turbilhão entre a sofrível labuta em ganhar o pão de cada dia e as relações de amor e amizade. O sentimento entre amigos, entre amadas e amados, seria o real motor da história. A ideologia seria um personagem coadjuvante. Importante e determinante, mas não o grande protagonista.
Envoltos por uma névoa onírica, os habitantes do romance são desprovidos de futuro, o contrário da suposição narrativa: Em livros que lera, mesmo aqueles romances que ele sorvia de um gole durante a infância, Patrick nunca acreditou que os personagens vivessem apenas na página. Eles se modificavam quando os olhos do autor estavam voltados para outra direção. Fora da trama, existia uma grande escuridão, mas tinha de haver, é claro, luz do dia em outra parte do mundo. Cada personagem possuía sua própria zona de tempo, seu próprio lampião, caso contrário seriam apenas homens de lugar nenhum.
A história de Patrick contada em Na Pele de um Leão não é exata como no senso comum dos best sellers, pelo contrário, é difusa. Habita a difusão que germina de uma lógica sublimar na qual a literatura estabelece seu universo. Ondaatje mostra que a linearidade da vida foi enterrada quando a Terra assumiu a cor azul.
Viver seria um princípio que parte do passado para o presente com uma suposição de futuro. Aquele que não tiver presente, que atire a primeira pedra. Aquele que não tiver passado, que acenda o pavio da primeira dinamite. Aquele que não tiver futuro, que durma em paz. Que o sono lhe seja leve.
Na Pele de Um Leão - de Michael Ondaatje, Editora 34, tradução de Rubens Figueiredo, 255 páginas, 22,00/Livraria Rosa do Povo (fone: 321-5691).


