A face amanteigada do pão
Incrível como existem pessoas para quem em todas as circunstâncias, quando cai, a parte amanteigada do lanche fica voltada para a superfície suja, molhada ou impregnada de resíduos menos nobres. Tudo no sentido figurado, claro, mas factível. Como acontece com Alfredo. Se segurar dois picolés, um em cada mão, para ele e outra pessoa, derrete-se rapidamente o seu, mas o segundo permanece intacto alguns minutos. É sempre assim, sejam de que gênero for, as coisas boas parecem escapar-lhe das mãos.
Recentemente ele foi a Brasília e, esperto como poucos, lembrou-se de checar a reserva no hotel e buscou o que lhe recomendaram. O recepcionista foi direto ao assunto: ‘‘No seu nome não existe nenhuma reserva. E do jeito que vão as coisas, aqui, o senhor vai precisar de muito esforço e calma. Quem sabe é alguém preparando uma surpresa... Nunca se sabe’’. Uma loirinha que tudo ouvia interveio graças ao sexto sentido: ‘‘Pode ser um daqueles pacotes em que o nome do convidado só figura na relação’’. Dito e feito. Ele exultou de contentamento e, deselegantemente, manifestou sua gratidão: ‘‘Tenho vontade de lhe dar um beijo...’’ Outro atendente parecia não ter gostado, mas ficou por isso mesmo.
Começam os problemas no aeroporto de Brasília. ‘‘É otimismo exagerado tentar viajar decolando em Brasília de quinta a sábado. Os parlamentares visitam redutos eleitorais. De segunda a quarta eles retornam.’’ A advertência do funcionário assustou porque Alfredo teria que pensar de novo em hotel. Isso o traumatizara. Depois de muito vaivém e a sugestão providencial de outra loirinha, Alfredo completou como experiente passageiro: ‘‘É sempre assim, complicado. Geralmente ele figura entre os últimos da relação’’. Curiosamente constataram seu nome no rol de convidados de um empresário e ele sorria, como se acabasse de desvendar sério problema enigmático e dirigiu-se ao embarque.
Em certas situações tem-se que ficar atento aos acontecimentos à nossa volta. Mas Alfredo, Padilha e Geremias se distraem facilmente e isso é perigoso, principalmente em finais de ano. Os três foram insistentemente convidados por Cornélio para o réveillon numa boate catarinense. Outros tentaram persuadi-los a escolher melhor um dos antros depois de visitar os demais. Mas eles derrubaram os obstáculos e fizeram a reserva. Tudo caríssimo e de mau gosto. Sequer o mulherio, de quinta categoria, salvaria a pátria. Contemporizando, Padilha ponderou que os quatro deveriam ter boa vontade. ‘‘Afinal, a coisa, no conjunto, até lembrava Las Vegas...’’
‘‘Las Vegas’’ eles veriam mais tarde, ao desejar repousar no hotel. Alguém se lembrou de pedir a conta no prostíbulo de gays. Que tragédia. Juntando o numerário dos quatro, não daria para cobrir metade de dois. Não adiantou discutir. Alfredo e Padilha decidiram resolver no tapa. Os dois contra certas frequentadoras. Que desastre. Policiais solícitos os levaram primeiro a um hospital para os socorros de emergência. De lá foram ‘‘hospedados’’ numa fétida delegacia de polícia. Ao amanhecer foram atendidos por um simpático delegado de polícia, que ponderou: ‘‘Vamos resolver o problema com objetividade. Vocês teriam que ressarcir até móveis, espelhos, instrumentos musicais, equipamento de som, lustres etc. Deve haver uma fórmula conciliatória. Depois conversaremos sobre o pagamento às mulheres...’’ Alfredo aparteou o delegado: ‘‘Aceito discutir tudo, mas de mim essas pilantras não levarão um tostão. Até que provem que são verdadeiramente do sexo feminino’’. Outra vez o pedaço de pão cai com a face voltada para a sujeira.

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