A face amanteigada do pão (Carlos da Silva)
A face amanteigada do pão
Incrível como existem pessoas para quem em todas as circunstâncias, quando cai, a parte amanteigada do lanche fica voltada para a superfície suja, molhada ou impregnada de resíduos menos nobres. Tudo no sentido figurado, claro, mas factível. Como acontece com Alfredo. Se segurar dois picolés, um em cada mão, para ele e outra pessoa, derrete-se rapidamente o seu, mas o segundo permanece intacto alguns minutos. É sempre assim, sejam de que gênero for, as coisas boas parecem escapar-lhe das mãos.
Recentemente ele foi a Brasília e, esperto como poucos, lembrou-se de checar a reserva no hotel e buscou o que lhe recomendaram. O recepcionista foi direto ao assunto: No seu nome não existe nenhuma reserva. E do jeito que vão as coisas, aqui, o senhor vai precisar de muito esforço e calma. Quem sabe é alguém preparando uma surpresa... Nunca se sabe. Uma loirinha que tudo ouvia interveio graças ao sexto sentido: Pode ser um daqueles pacotes em que o nome do convidado só figura na relação. Dito e feito. Ele exultou de contentamento e, deselegantemente, manifestou sua gratidão: Tenho vontade de lhe dar um beijo... Outro atendente parecia não ter gostado, mas ficou por isso mesmo.
Começam os problemas no aeroporto de Brasília. É otimismo exagerado tentar viajar decolando em Brasília de quinta a sábado. Os parlamentares visitam redutos eleitorais. De segunda a quarta eles retornam. A advertência do funcionário assustou porque Alfredo teria que pensar de novo em hotel. Isso o traumatizara. Depois de muito vaivém e a sugestão providencial de outra loirinha, Alfredo completou como experiente passageiro: É sempre assim, complicado. Geralmente ele figura entre os últimos da relação. Curiosamente constataram seu nome no rol de convidados de um empresário e ele sorria, como se acabasse de desvendar sério problema enigmático e dirigiu-se ao embarque.
Em certas situações tem-se que ficar atento aos acontecimentos à nossa volta. Mas Alfredo, Padilha e Geremias se distraem facilmente e isso é perigoso, principalmente em finais de ano. Os três foram insistentemente convidados por Cornélio para o réveillon numa boate catarinense. Outros tentaram persuadi-los a escolher melhor um dos antros depois de visitar os demais. Mas eles derrubaram os obstáculos e fizeram a reserva. Tudo caríssimo e de mau gosto. Sequer o mulherio, de quinta categoria, salvaria a pátria. Contemporizando, Padilha ponderou que os quatro deveriam ter boa vontade. Afinal, a coisa, no conjunto, até lembrava Las Vegas...
Las Vegas eles veriam mais tarde, ao desejar repousar no hotel. Alguém se lembrou de pedir a conta no prostíbulo de gays. Que tragédia. Juntando o numerário dos quatro, não daria para cobrir metade de dois. Não adiantou discutir. Alfredo e Padilha decidiram resolver no tapa. Os dois contra certas frequentadoras. Que desastre. Policiais solícitos os levaram primeiro a um hospital para os socorros de emergência. De lá foram hospedados numa fétida delegacia de polícia. Ao amanhecer foram atendidos por um simpático delegado de polícia, que ponderou: Vamos resolver o problema com objetividade. Vocês teriam que ressarcir até móveis, espelhos, instrumentos musicais, equipamento de som, lustres etc. Deve haver uma fórmula conciliatória. Depois conversaremos sobre o pagamento às mulheres... Alfredo aparteou o delegado: Aceito discutir tudo, mas de mim essas pilantras não levarão um tostão. Até que provem que são verdadeiramente do sexo feminino. Outra vez o pedaço de pão cai com a face voltada para a sujeira.





