A FACÇÃO MÍSTICA DO BRASIL
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de maio de 2000
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha2 
É um desses retratos luminosos sobre a cultura de um povo. Santo Forte, de Eduardo Coutinho (veja a programação de cinema na página 5), é longa-metragem realizado em vídeo, suporte em que o autor do antológico Cabra Marcado Para Morrer vem preferindo trabalhar já há algum tempo - a transferência para película, processo só realizado nos Estados Unidos, custou R$ 70 mil, e foi viabilizada pela Riofilme. No princípio, Santo Forte seria uma série sobre identidades brasileiras destinadas à TV Educativa. Mas o projeto acabou cancelado em meio a uma crise da emissora. Mas o diretor não desistiu de levar adiante o segmento sobre a religiosidade. E acabou optando por um proposta micro, um enfoque minimalista. A idéia era não mostrar tudo, mas somente o que servisse a seus propósitos: tema único, cenário concentrado, quando muito meia dúzia de personagens.
A partir de pesquisa da antropóloga Patrícia Guimarães, Coutinho fixou o olhar de sua câmera sobre a Favela Vila Parque da Cidade, zona sul do Rio, com uma população de mais ou menos 3 mil habitantes. Para os padrões cariocas, uma favela pequena, e uma das raras ainda não atormentadas pelas gangues de traficantes. Na definição de Coutinho, o local era um paraíso, um bairro popular como qualquer outro. Filmar na mira de AR-15 ou fazendo pacto com traficantes e policiais é insuportável, diz o diretor, que já enfrentou barra semelhante quando filmou Santa Marta: Duas Semanas no Morro.
Por onde quer se esteja sendo exibido, Santo Forte tem sido uma gratíssima revelação para o público. Foi assim nos festivais de Gramado (onde levou o Prêmio Especial do Júri) e Brasília em 99, e também nas salas onde tem sido lançado. O que se vê e o que se ouve na tela leva o espectador a observar e refletir sobre uma série de componentes do ser religioso brasileiro. As tais diversidades regionais, por exemplo, em muitos aspectos são menos profundas do que se supõe. A relação das pessoas com o sobrenatural, intermediada pela vida dos espíritos, é muito parecida em qualquer parte do país. As entidades de umbanda do Norte do Brasil têm seus similares nas grandes capitais do Sudeste. E em todo lugar é possível comprovar o fenômeno da passagem de católicos e afro-religiosos para as seitas evangélicas. Para Coutinho, comprovar esses fatos não implicaria em percorrer dezenas de lugares, ele podia ter tudo num único local.
Durante vinte dias, o diretor registrou o relato de 15 personagens previamente escolhidos - desses, apenas 10 ficaram na edição final. Ficaram os de maior carisma, aqueles que viajaram melhor nas respectivas histórias de vida. Entre estes estão um motorista de socialite que recebe um preto velho, uma mulher que acredita ter sido rainha do Egito e uma dançarina de show erótico com devoção diária à sua pomba-gira. O respeito de Coutinho fica evidente durante a captação dos depoimentos. E ele justifica: Se eles acreditam, então aquilo existe.
Santo Forte não é filme que navega nas águas do sociologismo de ocasião, embora possa ter existido predisposição, estimulada pelo próprio tema. E também não é filme-denúncia sobre esta ou aquela igreja na tarefa de manipular iletradas crendices. Repudiando qualquer manipulação, ele flagra o povo em momento de fé. E, a seu modo, tenta buscar uma espécie de identidade nacional na religiosidade. É cinema brasileiro, do bom e do melhor.


