A fábula da vitória
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Márcio Maio <br> TV Press 
É normal que se valorize mais o horário ''nobre'' das emissoras, a partir das 20 horas. Mas o que se tem visto na votação dos ''Melhores & Piores de TV Press'' é que, muitas vezes, as grandes novidades do ano na teledramaturgia estão em outras faixas. Como em 2011, com ''Cordel Encantado'' arrebatando os três principais títulos do segmento de dramaturgia na eleição: ''Melhor Novela'', ''Melhor Autor'' e ''Melhor Direção''.
A estética rebuscada adquirida com a captação em 24 quadros - como no cinema, a câmara registra 24 frames por segundo e não os usuais 30 da televisão - e o texto inspirado na literatura de cordel transformaram a fábula na grande vitoriosa dessa vez.
A Globo, como de costume, faturou quase todos as categorias entre os melhores da dramaturgia. Perdeu apenas a de ''Melhor Atriz Revelação'' para a Record, com a carismática Rayana Carvalho, a ex-vilã Pilar de ''Rebelde''. Mas dois de seus eleitos, curiosamente, retornaram à emissora depois de cinco anos na concorrente. Tanto Gabriel Braga Nunes, o malvado Léo de ''Insensato Coração'', quanto Marcelo Serrado, o afetado Crô de ''Fina Estampa'', arrebataram a maior parte dos votos como ''Melhor Ator'' e ''Melhor Ator Coadjuvante'', respectivamente, após longa temporada na Record.
Em situação ruim ficou mesmo o SBT, amargando o fato de ter sua maior aposta de 2011, ''Amor e Revolução'', encabeçando a lista de ''Pior Novela'' e ''Pior Autor'' do ano. Mesmo com o burburinho causado pelo vazamento de cenas de tortura antes da estreia e o beijo lésbico protagonizado por Luciana Vendramini e Giselle Tigre, a história não conseguiu se erguer. O que traz à tona uma triste constatação: por mais toscas que fossem as produções, a emissora de Sílvio Santos conseguia mais êxito adaptando sucessos mexicanos do que investindo em ideias originais brasileiras.
- NOVELA
Melhor: Cordel Encantado
2º Melhor: O Astro
Pior: Amor e Revolução
2º Pior: Malhação
Época de sonhos
Depois de três anos rejeitando tramas de época na faixa das 18 horas, a Globo se deu bem ao apostar na fábula ''Cordel Encantado''. O texto de Duca Rachid e Thelma Guedes pode até ser considerado atemporal, mas a mistura do cangaço brasileiro com uma corte europeia que chegava ao Brasil à procura da sua princesa perdida pouco tinha de contemporânea. O cuidado na direção e os diálogos inspirados na literatura de cordel garantiram o título.
- ATRIZ REVELAÇÃO
Melhor: Rayana Carvalho
2º Melhor: Giovanna Lancelotti
Pelas beiradas
A televisão nem sempre tem as portas abertas para atrizes reveladas em concursos de beleza. Mas a desenvoltura e a maturidade da novata Rayana Carvalho parecem ter agradado em cheio a imprensa especializada do país. Na pele da ex-vilã Pilar, a pernambucana conseguiu se destacar mesmo sem fazer parte do grupo dos seis protagonistas de ''Rebelde'' e não contar com o charme dos números musicais.
- ATOR REVELAÇÃO
Melhor: Paulo Rocha
2º Melhor: Domingos Montagner
Galã importado
Na falta de galãs nacionais, Aguinaldo Silva resolveu ''importar'' um de Portugal. E quem se deu bem foi Paulo Rocha, que faturou um dos papéis masculinos de destaque de ''Fina Estampa''. Na história, o romântico Guaracy tentou, a todo custo, conquistar a atenção da determinada Griselda, de Lília Cabral, sem sucesso. Mesmo assim, seu intérprete conseguiu mostrar a que veio.
- ATRIZ
Melhor: Regina Duarte
2º Melhor: Ana Beatriz Nogueira
Pior: Julianne Trevisol
2º Pior: Lúcia Veríssimo
O ano é dela
Há tempos Regina Duarte manifestava o interesse em dar uma ''mexida'' em sua carreira televisiva. E parece que a eterna namoradinha do Brasil conseguiu isso em ''O Astro''. Na pele da inconsequente Clô Hayalla, Regina protagonizou cenas que poderiam facilmente cair no exagero, até no ridículo. Mas a experiência de seus 46 anos de televisão garantiu a maturidade para construir a personagem de forma tão cuidadosa que a transformou na grande assassina do ''remake'' de Janete Clair. E fez desse trabalho um dos mais marcantes de sua carreira.
- ATOR
Melhor: Gabriel Braga Nunes
2º Melhor: Humberto Martins
Pior: Eriberto Leão
2º Pior: Caio Castro
Tentou e conseguiu
Gabriel Braga Nunes foi chamado às pressas para substituir Fábio Assunção em ''Insensato Coração''. E conseguiu transformar o vilão Léo em uma das poucas coisas que realmente chamaram a atenção na história. Depois de cinco anos de contrato na Record, o ator retornou à Globo no primeiro escalão da emissora e pouco espaço sobrou para que outros atores sobressaíssem na trama de Gilberto Braga.
- ATRIZ COADJUVANTE
Melhor: Cássia Kiss Magro
2º Melhor: Zezé Polessa
Uma grata surpresa
''Morde & Assopra'' era uma novela das 19 horas e assinada por Walcyr Carrasco, uma combinação que normalmente resulta em comédias de sucesso. Por isso mesmo, chega a ser curioso que tenha sido justamente a parte dramática da trama, defendida com afinco pela atriz Cássia Kiss Magro no papel da sofrida Dulce, que tenha chamado a atenção.
- ATOR COADJUVANTE
Melhor: Marcelo Serrado
2º Melhor: André Gonçalves
Só no topete
Marcelo Serrado nunca ficou esquecido na Globo. Mas é verdade que o ator precisou passar cinco anos na Record, onde protagonizou ''Prova de Amor'', ''Vidas Opostas'' e ''Poder Paralelo'', para fazer com que alguns redescobrissem seu trabalho. Agora, na pele do afetado Crô de ''Fina Estampa'', o ator experimenta seu personagem de maior popularidade na carreira.
- AUTOR
Melhor: Duca Rachid e Thelma Guedes
2º Melhor: Lícia Manzo
Pior: Tiago Santiago
2º Pior: Walcyr Carrasco
A quatro mãos
Sem dúvidas, ''Cordel Encantado'' foi a grande surpresa de 2011. E nada mais justo que valorizar um dos principais trunfos da novela para arrebatar as principais categorias na eleição dos ''Melhores & Piores 2011 de TV Press'': o texto. A dupla Duca Rachid e Thelma Guedes se firma cada vez mais como dois dos principais nomes de autores da Globo. Em seu segundo trabalho original - a primeira novela assinada pelas duas, ''O Profeta'', foi uma adaptação -, elas mostram o quanto a renovação da categoria é fundamental para a própria sobrevivência do gênero no país.
- DIRETOR
Melhor: Amora Mautner
2º Melhor: Jayme Monjardim e Fabrício Mamberti
Pior: João Camargo
2º Pior: Reynaldo Boury
Estética apurada
A plástica artesanal conquistada, principalmente, pelo uso da técnica de cinema dos 24 quadros foi decisiva na hora de dar a Amora Mautner o título de Melhor Diretora. Sob a supervisão do diretor de núcleo Ricardo Waddington, Amora mostrou com ''Cordel Encantado'' que é possível fazer uma novela diária com a mesma qualidade muitas vezes vista em especiais de fim de ano e séries com poucos capítulos.
- SÉRIES E SERIADOS NACIONAIS
Melhor: ''Macho Man''
2º Melhor: ''Divã''
Pior: ''Lara com Z''
2º Pior: ''Batendo o Ponto''
Na contramão do óbvio
Enquanto quase todas as produções de dramaturgia exploram gays bem resolvidos ou em busca de uma vida sem preconceitos, ''Macho Man'' ousou ao explorar a história de um ''ex-gay'' e sua relação mal resolvida com a amiga ex-gorda. A bela parceria de Jorge Fernando e Marisa Orth, aliada ao texto provocador de Alexandre Machado e Fernanda Young, garantiu ao seriado o título de preferido no ''Melhores & Piores 2011 de TV Press''. Uma ideia nada óbvia e que mostrou que não é preciso apelar para o politicamente correto para levantar a autoestima dos gays.


