Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
Quando se fala de literatura argentina contemporânea, o primeiro nome citado é Jorge Luis Borges (1899 - 1986). Logo na sequência aparece o nome de Julio Cortázar (1914 - 1984). Mas há muito mais.
Como qualquer outro país sul-americano, a Argentina possui uma história literária que não se restringe aos escritores amplamente conhecidos. É evidente que Borges e Cortázar foram os dois escritores argentinos de maior repercussão mundial (coincidentemente, ambos viveram a maior parte de suas existências longe da Argentina).
Roberto Arlt (1900 - 1942), contemporâneo de Borges e Cortázar, é um escritor que vem sendo resgatado dentro da história da literatura portenha. Um dos grandes responsáveis por este resgate é o escritor Ricardo Piglia que há duas décadas enaltece sua obra. No Brasil começou a ser conhecido através da publicação de ‘‘As Feras’’ pela Editora Iluminuras em 1996. Agora, chega às livrarias outro volume de contos de Arlt, ‘‘Viagem Terrível’’, também lançado pela Iluminuras.
A trajetória de Roberto Arlt é completamente distinta dos clássicos Borges e Cortázar. Nascido numa família pobre, estudou apenas até o terceiro ano primário. Filho de imigrantes poloneses (por parte de pai) e italianos (por parte de mãe) nasceu em Buenos Aires em abril de 1900. Sua adolescência foi ocupada por empregos temporários (balconista, mecânico, auxiliar relojoeiro, etc.) e visitas a bibliotecas e bancas de jornais. Aos 16 anos de idade saiu da casa dos pais. Foi, durante toda a vida, um autodidata.
Começou a publicar textos em revistas e jornais com 17 anos e em pouco tempo elegeu o jornalismo como profissão. Como cronista, começou escrevendo textos policiais. O reconhecimento aconteceu a partir de 1926, quando passou a trabalhar no jornal ‘‘El Mundo’’ escrevendo crônicas sobre a cidade de Buenos Aires. Consta que a partir dos textos de Arlt, a procura pelo jornal passou a ser tão grande que sua tiragem foi dobrada. O sucesso de suas crônicas estava no fato de retratar pessoas comuns, principalmente pequenos comerciantes, habitantes de cortiços, bares imundos, prostitutas, ladrões, etc, numa linguagem simples e direta. Como jornalista correspondente, conheceu vários países da América, entre eles, Uruguai, Brasil e Chile.
Roberto Arlt escreveu romances, contos, novelas, crônicas e, no final da vida se dedicou a textos teatrais. Sempre utilizando uma linguagem coloquial, grande parte de sua produção foi publicada em jornais e revistas. Tinha a mania de inventar coisas, nas horas vagas trabalhava num pequeno laboratório maluco instalado em sua casa. Chegou a inventar, com dedicação e insistência, um tipo de meia feminina resistente, indestrutível, emborrachada, patenteada em 1942.
Maria Paulo Gurgel Ribeiro, que assina a tradução e o prefácio de ‘‘Terrível Viagem’’ define o universo literário de Roberto Arlt da seguinte forma: ‘‘Seu estilo é inconfundível: linguagem mordaz, ácida, de uma ironia que beira o humor negro. Seus personagens são seres fracassados, humilhados, angustiados, sempre questionando o sentido da vida e buscando uma felicidade que lhes é constantemente negada.’’ Esse universo está presente nos dois contos que integram ‘‘Viagem Terrível’’, ‘‘O Traje do Fantasma’’ de 1930, e ‘‘Viagem Terrível’’ de 1941.
A história de ‘‘O Traje do Fantasma’’ é narrada por um homem preso em um manicômio acusado de manter relações sexuais com um marinheiro e depois assassiná-lo, cortando-lhe a garganta. Em sua defesa, apresenta sua versão dos fatos, com um relato imaginário de uma aventura delirante. Após uma bebedeira, acompanhou o marinheiro numa viagem em busca da taberna em que os fantasmas de marinheiros, após a morte, se encontram. No caminho, sem motivo aparente, o marinheiro se mata, o narrador entre em outro mundo onde fantasmas, fadas, leprosos, gigantes e fabricantes de dinheiro e outros seres vivem em conflito. Farto do outro mundo, volta ao mundo normal, andando completamente nu nas ruas da cidade.
A história ‘‘Viagem Terrível’’ é narrada por um jovem estelionatário que, para não sujar o nome da família, é enviado para uma longa viagem. A bordo do navio Blue Star, com destino ao Panamá, presencia acontecimentos estranhos que culminam numa grande tragédia. Uma enorme fenda se abre no fundo do oceano Pacífico sugando a água do mar. Navios e cargueiros que navegam na região começam a ser tragados pelo redemoinho. Como a morte é certa, a tripulação do Blue Star entra em delírio: os marinheiro nus, fazem uma grande festa, alguns se matam, outro matam em nome da justiça, outros ainda encabeçam um procissão religiosa com velas e oração. A fauna de passageiros é rica e exuberante. Mas a tragédia maior para o narrador, está em descobrir a verdadeira identidade da mulher por quem ele se apaixonara.
Roberto Arlt é um eficiente contador de histórias. Segue a tradição dos contistas que, somente no último parágrafo oferecem a compreensão completa da narrativa. Provocando ou não uma reviravolta aos caminhos da história, ele oferece surpresas. - -
‘‘Viagem Terrível’’ de Roberto Arlt, Editora Iluminuras, prefácio e tradução de Maria Paulo Gurgel Ribeiro, 126 páginas, R$ 16,00.

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