Uma das entradas de maior impacto na seleção oficial do Festival de Veneza de 2008, ''Terra Vermelha'' (veja a programação de cinema na página 2) abre mão de metáforas que poderiam debilitar o discurso proposto. E, politicamente direto e empenhado, vai direto ao ponto: o processo - aliás tacitamente consentido - de degradação e aniquilamento das populações indígenas brasileiras.
O diretor ítalo-chileno Marco Bechis, também com longas passagens por Buenos Aires e São Paulo, conhece os horrores ancestrais e atuais deste continente - séculos maculados pela reiterada obra destruidora de conquistadores, opressores e ditadores. Seu filme precedente, ''Garage Olimpo'' (programado para breve no Cine Com-Tour/UEL), de 1999 mas somente há pouco lançado comercialmente no Brasil, há uma década sacudiu a imprensa em Cannes ao revelar os subterrâneos da tortura durante a ditadura argentina. Reafirmando sua vocação para a polêmica pelo viés da denúncia, e depois de longa gestação, Bechis assina esta co-produção ítalo-brasileira na qual a ficção é tão real quanto o real.
O filme de Marco Bechis, drama que se poderia rotular de político-existencial e que jamais prescinde de agudo olhar documental, aos poucos se revela extremamente bem realizado, um libelo desprovido dos cacoetes e vícios ''socialistas e/ou socializantes'' que via de regra acompanham o cinema que se coloca em defesa de causas humanitárias.
Sem esquematismos, nada maniqueísta ou folclórico, em nenhum momento paternal, sempre enxuto e direto ao ponto, o argumento é essencial em sua simplicidade aparente. Na região de grandes latifúndios em Dourados, Mato Grosso, aculturados remanescentes dos Guaranis-Kaiowá tentam sobreviver em meio às muitas dificuldades impostas pela inumana realidade que os confinou em asfixiantes reservas, onde, por alguns trocados, encenam a vida selvagem para ricos turistas estrangeiros. Mas por trás da fachada fake do ''bom selvagem'' de Rousseau está uma imensa, dolorosa tragédia com muitas interfaces, consequência da perda da terra, da descaracterização cultural que viu extintos usos e costumes, da inadequação a uma vida de privações, da depressão que leva os jovens da etnia ao suicídio.
A entrevista coletiva que se seguiu à exibição para a imprensa em Veneza foi outro ponto alto do festival do ano passado. Ao lado de atores profissionais italianos, cinco índios Kaiowá que trabalham (e muito bem) no filme estavam lá, e deram seu recado de forma candente. Um deles, Eliana Juca da Silva, inesperadamente prestou um forte, inflamado depoimento-denúncia sobre o peso de ser sobrevivente índio no Brasil de hoje, um recado emocionado às lágrimas mais copiosas e sinceras que aquela sala de imprensa, sempre tão burocrática, frívola e mundana, jamais testemunhou.

mockup