Vivemos num mundo que cultua excessivamente o trabalho. O melhor dos homens é o homem que trabalha. Um homem sem trabalho é um infeliz, um inútil social. Uma série de problemas começam vir à tona quando este mesmo mundo começa a limitar as possibilidades de trabalho, quando começa a não oferecer trabalho.
Debruçada nesta contradição que gera sofrimento, a escritora francesa Viviane Forrester escreveu, em 1996, um raivoso livro, ‘‘O Horror Econômico’’ ( L’horreur économique), em que mostrava como a economia, com seu gigantesco poder, está massacrando e humilhando milhares de vidas. Expunha os danos provocados por uma sociedade onde a única lógica de comportamento é a lógica da competição e a única lei econômica aceita é a lei do lucro. Contra todas as perspectiva, a obra ganhou grande repercussão e milhares de leitores. A edição brasileira foi lançada pela Editora Unesp em 1997.
A tese central ‘‘O Horror Econômico’’ é a de que vivemos num mundo onde o trabalho está desaparecendo. ‘‘A evolução tecnológica provoca, não apenas uma crise de emprego passageira, mas uma mudança da civilização para um mundo onde só uma minoria de indivíduos continuaria a ser realmente útil à produção e, portanto útil a uma sociedade baseada na rentabilidade.’’ Nesta situação, uma legião de ‘‘inúteis’’ estariam vagando pelas ruas sem possibilidade de integrar-se socialmente à comunidade.
ReproduçãoDando ênfase aos componentes do aumento do desemprego em escala mundial e suas fatais consequências, Viviane Forrester diz que o poder político ainda finge lutar pelo trabalho, combater o desemprego. Mas, no fundo, tudo não passa de um mascaramento, de uma gigantesca mentira, com o propósito de desviar a atenção do verdadeiro problema: a ausência de trabalho. O verdadeiro desafio seria repensar a sociedade a partir da constatação de que o trabalho não é mais necessário. A questão é como seria possível organizar uma sociedade onde a maioria da população é inútil para a produção de bens e de serviços.
Através do avanço tecnológico das últimas décadas, o mundo passou a produzir mais riquezas com menos mão-de-obra. O discurso econômico e político afirmava que esse processo não iria suprimir os empregos, mas ofereceria às pessoas a possibilidade de trabalhar menos, ganhar mais e se dedicar ao lazer. O que não aconteceu.
Nas palavras de Forrester, ‘‘é essencial alimentar a ilusão de empregos futuros para manter os indivíduos em situação de espera, de dependência e de humilhação, pois isso permite que lhes sejam exigidos qualquer sacrifício, qualquer aceitação.’’ E se ainda existe algum interesse da política em ajudar os pobres, os chamados excluídos, é pelo simples fato de que eles ainda são eleitores.
ReproduçãoPartindo das questões apontadas por Viviane Forrester em ‘‘O Horror Econômico’’, o acadêmico francês Jacques Généreux escreveu, na sequência, em 1997 ‘‘O Horror Político’’ (Une raison d’espérer) que a Editora Bertrand Brasil acaba de lançar. Distintamente de Forrester, Généreux acredita que não é apenas a economia que está massacrando milhares de pessoas, mas a política, pelo fato de que a economia que governa o mundo está subordinada à política. O horror que estaríamos vivendo hoje, que antecede o horror econômico, seria político.
O capitalismo e o liberalismo, agarrados como um casal apaixonado, invadiram a economia dos quatro cantos do planeta. Sob a falácia da globalização, passaram a ter carta branca para sugar as riquezas de qualquer comunidade, de qualquer país. Nesta paisagem, o futuro aparece um enorme beco sem saída, ‘‘onde ninguém pode ganhar nada que não seja tirado de outro. As empresas não sobreviverão mais sem conquistar o mercado de seus concorrentes; uma nação não conseguirá prosperar sem empobrecer outras nações; um desempregado só encontrará trabalho se algum empregado for despedido.’’
Para Jacques Généreux, a impotência das políticas sobre a economia é um mito, ‘‘em parte elaborado e instrumentalizado pelos próprios políticos, para justificar o imobilismo, na medida em que constitui a mais lucrativa estratégia eleiçoreira’’. Estaríamos vivendo uma crise mais profunda: ‘‘Nossa crise não é da economia, mas, sobretudo, da vontade política, da coragem política, do debate político, da informação política, do compromisso político, da luta política - uma crise da democracia.’’
No seu livro, Généreux traça vários graus de horror. Um deles seria a tirania do mercado político, onde a política está sujeita às leis de um mercado em que o principal objetivo é a conquista o poder e sua manutenção pelo maior tempo possível. A democracia assume a forma de uma livre concorrência pelo poder: ‘‘A natureza ‘concorrencional’ da democracia estimula os políticos a se conduzirem como qualquer ‘empresário’ na disputa de um ‘mercado’ qualquer. De fato todo candidato aos sufrágios populares deve responder à ‘demanda’ política expressa pelos eleitores, apresentando uma ‘oferta’ política adequada (programas, leis, regulamentações, reformas, etc.). O objetivo dos responsáveis políticos é melhorar sua ‘parcela de mercado’ com repetidos sucessos eleitorais. E para isso, têm que ‘vender’ seus programas, da melhor maneira, aos ‘clientes’ em potencial, os eleitores. A partir daí, a procura do sucesso rouba frequentemente a prioridade da procura dos objetivos, que nós, os cidadãos, consideremos mais importantes: o bem-estar coletivo, a justiça, o emprego, a paz, etc. E, a princípio, não é o efeito das ambições políticas que ofusca as exigências da nação, mas o resultado lógico da competição democrática. Claro, a vida política tem todas as chances de seduzir os indivíduos motivados pela ambição pessoal pelo gosto do poder, assim como os negócios atraem os indivíduos ávidos de lucro.’’
Em suma, o verme da competividade invadiu tudo que encontrou pela frente. Fincou bandeiras, fincou raízes, e passa todas as horas do dia e da noite contando dinheiro.
Jacques Généreuz apresenta uma possibilidade de luz no fundo do túnel, a solidariedade. Mas o túnel é longo e demasiadamente escuro: ‘‘A solidariedade só é, de fato, assimilável quando os sacrifícios exigidos são recompensados pelos benefícios almejados. Portanto, em democracia, o único meio de obter uma demanda efetiva a favor de políticas de solidariedade consiste em deixar que os efeitos perversos do egoísmo, da falta de partilha e da exclusão social atuem profundamente na sociedade, e por bastante tempo. Significa que o desemprego precisa atingir um nível tal, que uma maioria de indivíduos, mesmo não afetada diretamente, sinta-se ameaçada. As marcas e os efeitos da pobreza precisam ultrapassar o limite em que se tornam perigosos para a segurança e o bem-estar social: mendicância agressiva, delinquência, ressurgimento de doenças contagiosas tidas como erradicadas, etc. Como a criança só aprende, realmente, o perigo do fogo quando queima os dedos, a sociedade só compreende o interesse das políticas de solidariedade, diante do horror econômico e social engendrado pela ausência de solidariedade.’’
‘‘O Horror Econômico’’ de Viviane Forrester, Editora Unesp, tradução de Àlvaro Lorencini, 154 páginas, R$ 15,00.
‘‘O Horror Político’’ de Jacques Généreux, Editora Bertrand Brasil, tradução de Eloá Jacobina, 144 páginas, R$ 18,00/Livraria Rosa do Povo (fone 043/321-5691).

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