A exposição dos mistérios
Há pessoas para quem a vida é sempre um tema profundo, elas se expressam deste modo, indo além da superfície. Elas nunca correm como riachos, movimentam-se como se estivessem no leito de um rio ou no fundo do mar.
Foi essa a impressão que me causou a "Ocupação Hilda Hilst" que está no Itaú Cultural, em São Paulo. O ambiente nos leva de volta à casa de HH, à convivência com os amigos, à correspondência com jornalistas e outros poetas, mostra como se dava seu processo criativo: para escrever textos de teatro e poemas ela fazia também desenhos. Há uma série engraçada dedicada à sua personagem mais controvertida: Lori Lamby ,a menininha que escrevia textos pornográficos. Sua velha máquina de escrever está em exposição, uma testemunha física dos rios de literatura que correram por ali, assim como galerias de fotos que mostram momentos importantes da vida daquela que é uma das grandes poetas do país, de escrita sofisticada que nos leva a reflexões a cada linha.
Na exposição, a sensação de intimidade aumenta com as gravações que estão por toda parte, são muitas falas de Hilda, de voz grave e cativante, como uma boa contadora de histórias. Mas o que mais me impressionou foi um vídeo exibido em tela tríptica, de modo que todos os espectadores possam ver tudo, não importa onde se sentem. Este vídeo me prendeu como um ímã, não tenho explicação para o fato de tê-lo assistido quatro vezes, mas continuaria ali como se entrasse numa nave do tempo, voltando à Casa do Sol, onde viveu Hilda Hilst, em Campinas, para deixar a marca de tudo o que importava a ela em vida e tratando a morte como uma parceira, como nos poemas do livro "Da Morte. Odes Mínimas.", do qual tenho um exemplar da Editora Globo, que faz parte da coleção organizada por Alcir Pécora. Os poemas deste livro sempre me atingiram pelo grau de cumplicidade que HH estabelece com aquilo de que temos mais medo. Ela diz: "Uns barcos bordados/ No último vestido/ Para que venham comigo/ As confissões, o riso/ Quietude e paixão/ De meus amigos// Porque guardei palavra numa grande arca/ E as levarei comigo."
É muito verdadeira e legível essa grande "arca de palavras" de Hilda Hilst. No vídeo que assisti ela declara que a vida é complexa - como não? - afirmando que viver é tão incompreensível quanto necessário. Nas imagens fica claro que ela amava a vida, nas cenas com amigos, em reuniões na Casa do Sol em qualquer tempo, ali onde a "arca de palavras" encontrou abrigo respirando como um organismo entre as paredes.
Estão lá o ambiente de trabalho da poeta, seus livros, os móveis pesados e talvez herdados da família tradicional, as partes externas e a janela de um casarão que talvez fique na mesma propriedade, não tenho certeza, só sei que seu abandono me provocou uma enorme melancolia. Talvez esta melancolia seja o que tenha me feito assistir ao vídeo quatro vezes, como se me abandonasse também ao tempo, ficando ali sem tempo nenhum, absorta nas imagens. As cenas são delicadas, especialmente a de um sino de vento que toca melodia que parece vir de algum mestre oriental como um lamento, mas a imagem do Cristo sacrificado no colo de sua mãe, logo atrás deste pequeno sino, abriu-me também o significado da Páscoa, onde tudo renasce.
Ir à exposição foi também ver Hilda renascida em seu ambiente doméstico, acariciando um pássaro preto na gaiola com os gestos de quem compreende profundamente a natureza das coisas, o vento está muito presente, faz parte dos diálogos, como uma música que permeia eternamente as experiências da autora. O vento que a levou é o mesmo que a traz no início do vídeo quando, logo depois do jardim, HH aparece para falar do incompreensível para quem vive em riachos. Para compreendê-la é preciso mergulhar em rios e falar com as folhas.
Ela diz que é lícito provocar as pessoas com perguntas que talvez mudem para sempre as suas vidas e faz isso o tempo inteiro, até que o vídeo é cortado como uma morte súbita. Foi assim que terminou meu périplo com Hilda Hilst nesta exposição, com mistérios me carregando da vida para a morte. Até por isso, também posso ver mistérios me carregando da morte para a vida neste domingo de Páscoa, HH me ensinou muitas coisas ao abrir generosamente a sua "arca de palavras".
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