A experiência estética da dor
A experiência estética da dor
Espetáculo do grupo argentino La Barraca mostra que somos cobaias de experiências políticas, sociais ou genéticas
DivulgaçãoCena de El Experimento Damanthal: seres humanos confinados como cobaiasMarcos Losnak
Especial para a Folha2
O crânio humano é depositário de um infinito perturbador. Nesse pequeno espaço recheado tudo é possível, uma palheta de emoções que tende a ser esmiuçada em nome da razão. Um estudo onde a razão pode se transformar em delírio.
A companhia argentina La Barraca, presente do Filo/99 com o espetáculo El Experimento Damanthal, coloca no palco, através do teatro de imagem, o delírio interno das experiências científicas da razão. Utilizando a figura do médico Damanthal, contemporâneo de Freud e Jung, expõe o lado podre das pesquisas do cérebro e da psiquê humana.
Assim como William Burroughs realizou experiências com seu próprio hipotálamo, Damanthal realizou experiências brutais com o corpo e a mente alheia. Suas cobaias eram seres humanos confinados.
La Barraca consegue construir um espetáculo forte, de impacto, e ao mesmo tempo lírico. Apresenta a violência em câmara lenta, convertendo a velocidade da dor e do desespero em lentidão poética.
Se por um lado o teatro de imagem possui a facilidade de se apoiar na sugestão, o trabalho de La Barraca segue o caminho das pedras e consegue manter uma narrativa clara e calculada estéticamente. A colocação de signos ampliam as significações convertendo-as em plasticidade.
Subjetivamente, El Experimento Damanthal apresenta a dependência que a ciência possui da literatura. A ciência só se torna palpável através de palavras. Sempre registrada em palavras, ela é refém de um discurso. Experiências convertidas em palavras e palavras convertidas em experiências não são uma avenida de mão dupla, apenas dissimulação do bom senso.
Somos todos cobaias de algum tipo de experiência, seja ela consciente ou inconsciente. Cobaias de violentas ou subliminares experiências políticas, sociais, biológicas, econômicas, genéticas, psicológicas, etc, etc. A questão está em diagnosticar de quais experiências somos objeto e aceitá-las ou miná-las.





