A exatidao do gesto trazida á luz
A EXATIDÃO DO GESTO TRAZIDA À LUZ
Francisco Faria
Especial para a Folha2
ReproduçãoA artista paranaense Maria Angela Biscaia com sua filha Julia
M
aria Angela Biscaia, 39 anos, artista plástica, desenhista e gravadora paranaense, nascida em Primeiro de Maio, é a autora de um álbum de 12 litogravuras que será lançado em breve em Curitiba. O novo trabalho é uma reflexão sobre o gesto das mãos nas obras de mestres como Mantegna, Bronzino, Leonardo da Vinci e Ingres.
Em entrevista, Maria Angela fala sobre seu trabalho, e o artista plástico Francisco Faria o analisa no texto A exatidão do gesto trazida à luz, do qual publicamos um trecho.
ReproduçãoEstudo segundo Cristo Morto de Mantegna,
30x25cm. Litografia de Maria Angela Biscaia, 1998
Claude Gandelman, professor de literatura na Universidade de Haifa, afirma que, nas artes plásticas, o gesto de demonstração - a imagem da mão com o dedo indicador apontando para um objeto dentro da pintura - é inexistente na iconografia do mundo ocidental antes do século XV, e raro após 1490. No entanto, diz, é onipresente num grupo de pinturas do período da pré-Renascença italiana.
A artista plástica Maria Angela Biscaia, observadora atenta da expressão das mãos no contexto da pintura figurativa, certamente notou essa recorrência nas telas do período. Neste seu novo álbum de gravuras, observamos pelo menos um trabalho em que o gesto de demonstração está presente: no que realizou segundo A Virgem dos Rochedos, de Leonardo da Vinci.
A função poética da linguagem das mãos, em pintura, é um interessante vocabulário gestual usado com admirável exatidão pelos grandes mestres. Dialogava com o contexto de significacões da pintura, sugerindo variantes interpretativas, dando-lhe muitas vezes um significado superior.
Nas gravuras de Maria Angela, a função poética das mãos é trazida para primeiro plano. Retirando do campo de visão o objeto referenciado, ou mesmo a própria figura, a narrativa do original deixa de existir. Sem ela, desaparece o que poderia haver de retórico ou propedêutico, restando o conteúdo poético da presença das mãos.
ReproduçãoEstudo segundo Virgem dos Rochedos de Leonardo da Vinci, 20,5x40cm. Litografia de Maria Angela Biscaia, 1998
Que a artista recolha esses momentos da história da arte me parece natural, pois não está interessada num catálogo de gestos, mas numa coreografia expressiva dos gestos quando estes se tornam plásticos, isto é, quando seu desenho plasma uma intenção, um estado, uma condição física ou espiritual. Embora o significado plástico de uma obra de arte não possa ser dissociado em seus atributos - a beleza está no todo - é certo que a memória visual lembra a inteireza original, e nos solicita, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre a beleza plástica do desenho do gesto. Sendo assim, vale a execução do presente trabalho, não a do original. A valorização poética do gesto das mãos é renovada por um desenho, e, quero frisar, um exímio desenho, que lhe confere intimidade e delicadeza.
Exemplo disso é o desenho das mãos a partir do óleo de Mantegna o Cristo Morto. Da composição soberba, que ressalta o caráter mórbido da cena, Maria Angela, ao contrário, realizou um desenho em que a sensualidade e o calor persistem na presença do corpo, com seu braço e mão chagada banhados numa luz cálida em meio às dobras suaves e macias do tecido, como se a própria mão estivesse a acariciá-lo. Uma aguda reinterpretação do fascínio sutil da imagem do mestre de Pádua.
Esta série litográfica é um surpreendente conjunto de desenhos. Não é um trabalho de releitura. Seu interesse está na coreografia visual do conjunto da obra, no bailado das mãos, que vai de uma gravura a outra. Em cada trabalho percebemos a poesia e a imantação da presença dos outros, como se a própria arte estivesse animada por gestos que jamais deixaram de
ser feitos na hora exata. Francisco Faria - Maria Angela, seu trabalho recente revela um equilíbrio sensual no tratamento da imagem. Pelo tratamento conferido à luz e à textura dos tecidos e dos corpos, estamos perante um desenho que convida a uma aproximação íntima. Mas, simultaneamente, o domínio técnico empregado no acabamento e na resolução da imagem, passa um controle, uma altivez, que nos mantém a uma certa distância; uma distância platônica, contemplativa, talvez. Em outras palavras, a grande sensualidade desses trabalhos não estaria distante do arrebatamento?
Maria Angela Biscaia - Que bom que você percebeu isso! Algumas pessoas já me perguntaram por que eu estava desenhando tantos santinhos. A sensualidade já existia nos originais. O que fiz foi fotografá-los com os meus sentidos e revelá-los com o desenho. E o desenho, neste caso, é importante porque revela meu traço, minha pessoa. É o processo, filtrado pelo meu corpo. Enquanto desenhava essas gravuras, procurava controlar a respiração, as influências externas, toda a energia que pudesse me fazer quebrar o traço. Eu quis uma coisa íntima porque estou buscando uma revelação pessoal através de imagens que foram feitas há séculos, por outros artistas, e que mostram pulsações muito humanas. Quero dizer com isso que a linguagem figurativa é tão cheia de significados, de códigos inteligentes (incluo aí os sentidos), que sinto prazer em decifrá-los. Deixo de ser uma espectadora, e passo a participar da cena. É como conversar com eles, e aprender. É uma linguagem.
Josely Vianna -Quando você fala em alcançar uma revelação pessoal através do desenho, me lembro da lição do mestre zen, que aconselhava o discípulo a se transformar no bambu que pintava. Você acha que o exercício da arte pode ser uma aventura espiritual?
Maria Angela - É isso mesmo. A arte é um exercício espiritual. E o que mais poderia ser? O artista que se considera pronto não é um artista. A arte é a busca incessante de autoconhecimento através da expressão do Eu. É o espelho espelhado, tantas vezes, até que não mais se reconheça.
Francisco Faria - A maioria das mulheres artistas sempre se manteve a uma certa distância da imagem do corpo. Existem exceções, que mencionaria de memória: Frida Kahlo (pintura), Diane Arbus e Cindy Sherman (fotografia) e Camille Claudel (escultura). No caso das primeiras temos, no entanto, imagens de corpos torturados, excluídos de um contato mediado por prazer e sensualidade. De Sherman podemos dizer que temos simulacros, imagens artificializadas, o que implica numa evasão da sensualidade. Somente em Claudel é possível ver uma carga decisiva de sensualidade emanando da escultura. Você pretende avançar com este trabalho sobre o corpo em projetos futuros?
Maria Angela - Provavelmente. Essa coisa de corpo me impressiona muito. Os corpos falam e ninguém domina isso. É a inteligência sensível, silenciosa. Mas no desenho o corpo não é o corpo, o corpo é a mensagem, é metáfora. O Cristo Morto de Mantegna me traz essa idéia. A paixão não era dele, era dos outros. Mas com qualquer outro elemento também seria assim. O que importa não é o corpo, a mão, a asa. Importa o que está escrito através disso. Como a mão do anjo que Leonardo da Vinci desenhou para a Virgem dos Rochedos. Aquilo não é mão, é um pássaro. Percebe a forma e o significado? As coisas, como são, possuem sinais imensos de inteligência e criatividade. Não sinto vontade de distorcer nada, estão perfeitas assim. Tudo o que eu venha a fazer terá sempre esta intenção do olhar. Bem simples. Nada está morto nem estático por isso. Existem e se revelam. É ver através dos layers.





