A ex-top model Milla Jovovich surpreende na pele da heroína francesa
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quinta-feira, 16 de dezembro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 16 de dezembro (AE) - Milla Jovovich é a boa surpresa de "Joana dArc de Luc Besson". Como uma desvairada, passa para o espectador a coragem suicida da donzela de Orléans no campo de batalha. Milla, ex-top model, não faz feio numa galeria de intérpretes do papel que já teve nomes como o da lendária Falconetti, Ingrid Bergman, Michle Morgan, Jean Seberg e Sandrine Bonnaire.
Vem de longe o fascínio do cinema pela garota analfabeta que ouvia vozes e conduziu a França a uma vitória espetacular contra os ingleses no século 15. A cada intérprete, um diretor. Cada um deles quis esculpir o mito à sua maneira, às vezes humanizando, às vezes criticando a figura mítica.
Como mito, Joana dArc presta-se às mais variadas interpretações. A de Besson é essencialmente psicanalítica. Outros diretores adotaram diferentes partidos, daí a escolha de suas atrizes. A sueca Ingrid Bergman pode não ter sido a melhor Joana dArc do cinema, mas criou duas vezes a personagem.
A primeira, em 1948, num filme de Victor Fleming, o diretor creditado de ..."E o Vento Levou". Não é muito interessante e a própria Ingrid deplorava tanto sua interpretação que certamente influenciou o marido Roberto Rossellini para que realizasse o filme baseado no oratório "Joana dArc na Fogueira", de Paul Claudel.
Antes de virar filme, "Joana dArc na Fogueira" foi encenado como ópera pelo próprio Rossellini. Do palco, a Joana dArc de Rossellini saltou para a tela em 1954, reassumindo a forma de oratório. Como no episódio de "O Milagre", que Federico Fellini interpretava, o grande cineasta tenta discutir o mito a partir da religiosidade. Ele mostra que a santidade é uma forma de loucura. Ingrid, na fogueira, é ao mesmo tempo a louca e a santa.
Otto Preminger fez sua versão em 1957, baseado em George Bernard Shaw. O original, de 1923, foi escrito como reação ao processo de canonização de Joana dArc pelo Vaticano. Preminger foi muito criticado por escolher uma atriz inexperiente, a estreante Jean Seberg. Em vez do processo da santidade, o filme, com o irônico título de "Santa Joana", investiga o mito do ponto de vista da política. Joana nunca foi tão anti-heróica.
Michle Morgan foi a Joana do acadêmico Jean Delannoy em "Destinées", de 1953. O filme narrava em paralelo a história da donzela e a de uma garota que enfrenta os nazistas durante a 2.ª Guerra. François Truffaut e os demais críticos de "Cahiers du Cinéma", que abominavam Delannoy, não pouparam sequer a atriz, quase sempre admirável.
Jacques Rivette fez de Sandrine Bonnaire a intérprete de "Jeanne, la Pucelle e Les Grandes Batailles", já nos anos 90. Dois filmes que também exploravam o mito psicanaliticamente, mas numa perspectiva diferente da de Besson. Para Rivette interessava o por que dessa garota ter assumido uma identidade masculina para vencer no campo de batalha.
Pouca gente se lembra do nome da Joana dArc de Robert Bresson. O filme de 1962 privilegia o julgamento, que Besson trata superficialmente, mais preocupado com a ação. É genial e a atriz Florence Carrez, tratada como um objeto, com a frieza e o distanciamento constantes de Bresson, é maravilhosa. O mais religioso de todos esses cineastas, Carl Theodor Dreyer, interessou-se pelo martírio de Joana dArc no seu clássico de 1928. Ele filma em grandes planos o rosto da atriz Falconetti, como se quisesse radiografar sua alma. Falconetti, conta a lenda
ficou tão marcada pela heroína que enlouqueceu. Foi, e ainda é, a maior Joana dArc do cinema.


