A evolução das máquinas de tortura na ótica de Kafka
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segunda-feira, 23 de maio de 2011
Luiz Zanin Oricchio <br> Agência Estado 
São Paulo - ''É um aparelho singular.'' Desse modo, um oficial descreve ao visitante a máquina de execuções em ''Na Colônia Penal'', de Franz Kafka. Essa frase inicial está na primeira cena da versão álbum agora lançada em português na tradução de Carol Bensimon pelo selo Quadrinhos na Cia.
Trata-se de um trabalho gráfico bastante sofisticado. Preserva o sumo da história de Kafka e a ilustra com desenhos muito expressivos, que ressaltam o absurdo da trama. O comandante, com seus olhos delirantes, é o personagem principal, que tenta explicar ao visitante o funcionamento da máquina e a beleza da administração da justiça que dela advém.
A primeira frase é um emblema. A máquina de tortura é apenas ''singular''. Uma proeza técnica, na qual o engenho humano para infligir sofrimento ao seu semelhante é elevado à categoria de arte. Em sua descrição, o aparelho não é terrível, nem desumano, ou qualquer outro termo que expresse juízo de valor. É apenas singular, fruto da genialidade de outro comandante, antecessor deste que narra e se apresenta como guardião de uma tradição. Ao lado jaz, acorrentado, o pobre-diabo que provará da ação da máquina para deleite do comandante e ilustração do visitante. É um soldado raso que dormiu durante seu turno de guarda e reagiu com violência ao relho do seu superior.
A descrição da máquina ''singular'' é minuciosa. Trata-se de um aparelho munido de agulhas que imprimem a sentença no corpo do prisioneiro, perfurando-o cada vez mais fundo. O processo inteiro dura 12 horas e, nos ''bons tempos'', segundo o oficial, era presenciado por toda a população da cidade.
Em seu texto, Kafka usa sua melhor arma ao tratar com fria objetividade uma situação absurda - não por acaso, Ernesto Sábato o chamava de escritor absolutamente realista. O que há de terrível em sua escrita é o contraste entre aquilo que descreve e a maneira como é descrito. Kafka naturaliza o horror e, assim o fazendo, o coloca diante de nós como um terrível espelho.
Sua paródia sinistra da justiça, apresentada em ''Na Colônia Penal'', é esmiuçada passo a passo. Aquele que vai morrer sabe qual a sentença? Não. Sabe que foi condenado? Não. Sabe como foi conduzida a sua defesa? Não, ele não teve oportunidade de se defender. O oficial prossegue: se tivesse sido interrogado, contaria um monte de mentiras, advogados dariam sua interpretação e perderíamos tempo precioso nesse emaranhado de versões. Tudo pode ser mais simples: ''O princípio segundo o qual eu sentencio é de que a culpabilidade nunca deixa dúvidas.'' O réu é culpado de antemão, como em ''O Processo''.


