A eternidade em forma de guerra
Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
Guerras podem ser realizadas em nome de inúmeros princípios. Podem ter fins políticos, religiosos, econômicos, ideológicos, etc. Mas durante a batalha, no confronto real, a guerra serve apenas a si mesma, não mais aos fins que a precederam. Suas marcas não cicatrizam como ferimento nos corpos dos soldados, pelo contrário, se arrastam por muito tempo pela memória.
Essas cicatrizes de guerra que se arrastam por séculos estão presentes em dois romances do escritor albanês Ismail Kadaré que a Editora Objetiva acaba de lançar. Três Cantos Fúnebres Para o Kosovo e As Pontes dos Três Arcos focalizam, cada um a seu modo, um dos maiores traumas da região dos Bálcãs: as batalhas provocadas pela invasão turca (islâmica) no século 14.
Escrito em 1998, Três Cantos Fúnebres Para o Kosovo é uma espécie de prefácio ficcional sobre as constantes guerras da Península Balcâmica que culminaram com a fragmentação da Iugoslávia dos últimos tempos. Narra a sangrenta batalha ocorrida em 1389, quando uma coalizão bálcamo-cristã uniu exércitos sérvios, bósnios, albaneses e romenos com o objetivo de ocupação da península pelo exército otomano. A batalha ocorreu na planície chamada antigamente de Campo dos Melros, atualmente conhecida como Kosovo (ou Kossovo). O confronto entre os dois exércitos durou apenas dez horas, um confronto sangrento em que os islâmicos saíram vitoriosos.
Três Cantos Fúnebres Para o Kosovo é constituído por três melancólicas história interligadas. A primeira delas, A Velha Guerra, narra a batalha em si. A segunda, Uma Grande Dama, conta a trajetória dos sobreviventes da guerra, em especial os rapsodos bálcãs responsáveis pelos cantos de louvor à vitória. Com a derrota, passam a vagar como mendigos sem destino, como fantasmas de um fracasso. A terceira, Prece Real, é uma súplica da alma do rei turco Murat assassinado durante a batalha - alertando que toda guerra traz, dentro se si, a história da humanidade, ou seja, a triste incapacidade da humanidade em resolver divergência (política, ética, cultural, etc.) através da paz.
Escrito vinte anos antes de Três Cantos Fúnebres Para o Kosovo, em 1978, A Ponte dos Três Arcos é ambientado na mesma região anos antes da batalha do Campo dos Melros. Situada no ano de 1377, a história é narrada por um monge albanês, chamado Gjon, que assiste à construção de um ponte sobre o Rio Ujana. Ponte que deveria unir as duas margens, por ironia, anos mais tarde, serviria de acesso para as tropas otomanas à invasão da Albânia.
Residente às margens do rio, Gjon (nome escolhido por Kadaré em homenagem à Gjon Buzuk, religioso responsável pelo primeiro livro escrito em língua albanesa, em 1555) conta a história da construção da ponte cuja origem está fundamentada no absurdo: os espasmos de um epilético às margens do rio. A cena é interpretada como a vontade divina suplicando a construção de uma ponte no local.
No romance, Gjon é a única testemunha sensata dos fatos manipulados para a construção da obra. Sua investigação dos fatos, revela tanto o poder político, econômico, e a força dos mitos populares.
Durante a construção da ponte, vários e estranhos desastres ocorrem. O povoado interpreta-os como vingança do rio, que não deseja um ponte sobre suas águas. Um deles é o misterioso abalo (uma sabotagem) dos pilares de sustentação da obra. Para resolver o problema, o imaginário da população é manipulado com base numa lenda da região.
Utilizando a crença da população, os engenheiros espalham o boato de que o rio exigia um sacrifício humano para acalmar-se e aceitar a ponte sobre suas águas. O caso termina com um homem sendo concretado no interior de um dos pilares da construção, em sacrifício.
A literatura do albanês Ismail Kadaré, indicado 15 vezes ao Prêmio Nobel, possui a capacidade de, partindo de questões regionais, transformá-las em sentimentos universais. Como fabulista, tanto em A Ponte dos Três Arcos e Três Cantos Fúnebres Para o Kosovo parte da história albanesa, bem como da região dos Bálcãs, para mostrar que, em cada família, em cada povoado, em cada nação, está presente toda a história da humanidade. A guerra seria o melhor exemplo.
Guerra é guerra em qualquer parte do planeta. O objetivo primordial é matar e destruir o inimigo, bem como tudo o que ele representa. O resto é detalhe, ou seja, a vida é um detalhe menor. Esse conceito se prolonga para toda e qualquer situação atual: a vida, pode ser triturada, esmagada e inutilizada em guerras sem pólvora, lâminas ou confronto direto. Mesmo assim, os feridos estão fadados a repousar sob o solo, setes palmos.
Três Contos Fúnebres Para o Kosovo de Ismail Kadaré, Editora Objetiva, tradução de Vera Lúcia dos Reis, 118 páginas, R$ 14,00.
A Ponte dos Três Arcos de Ismail Kadaré, Editora Objetiva, tradução de Adalgisa Campos da Silva, 156 páginas, R$ 16,00.Dois romances de Ismail Kadaré, lançados pela Editora Objetiva, resgatam a secular guerra dos Bálcãs
ReproduçãoA imagem Guernica, criada por Pablo Picasso, aponta para o mesmo questionamento de Kadaré sobre os dramas da guerra





