A eternidade em esculturas de ossos humanos
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terça-feira, 22 de julho de 2003
Especial para a Folha 
Kutná Hora - Lápides em volta de igrejas é comum se ver em qualquer parte do mundo. Mas um cemitério dentro de uma igreja só mesmo em Kutná Hora, na República Tcheca. O detalhe é que o cemitério não tem túmulos. Onde ficam os corpos então? A visão é aterrorizante: milhares de ossos humanos adornam as paredes e o altar da pequena capela Kostnice. Os restos mortais de aproximadamente 40 mil pessoas estão expostos em forma de lampadários, cruzes, ostensórios, brasões e na decoração mais do que assustadora do lugar.
Os ossos que hoje enfeitam a capela começaram a ser removidos dos túmulos em meados do século XV quando o cemitério já contava com uma área de 3,5 hectares e sobrepostos ao redor da igreja que estava sendo construída. Em 1511, um monge teve a idéia de aproveitar todo aquele material que enchia os porões. Encarregou-se de arrumá-los e os separou em seis pirâmides colocadas em cada um dos cantos da capela. Mais peças foram incluídas à decoração pelo arquiteto tcheco Rajsk. A última arrumação é de 1870, quando Frantisek Rint também desinfectou e caiou os ossos.
Já na entrada, é possível ver a inscrição em latim IHS (Iesus Homini Salvator Jesus Salvador da Humanidade). Ao lado da escadaria estão dois cálices e acima uma cruz. Logo abaixo, o nome e a cidade natal de Rint, considerado o autor original da excêntrica arrumação, e a data da sua conclusão. Nos cantos da igreja estão quatro das seis primeiras pirâmides que enfeitavam a igreja há mais de 500 anos. No altar principal, dois ostensórios dão o toque final à decoração. Tudo feito de ossos humanos praticamente intactos. Crânios de guerreiros ganham lugar de destaque na capela.
Ao lado de uma das pirâmides, um brasão com a imagem de um corvo bicando o olho de um guerreiro turco homenageia os Schwarzenberg. Esta família de nobres foi responsável pela preservação de Kastnice ainda em meados do século XIX, quando compraram a propriedade do mosteiro de Sedlec, fechado em 1784 pelo imperador Franz Joseph II. Não bastasse a quantidade enorme de ossos humanos expostos, na pequena igreja estão depositados ainda os restos mortais de 15 ''cidadãos ricos'' da antiga Kutná Hora. Do lado de fora, lápides e túmulos convencionais não deixam dúvidas sobre a ''eternidade'' do lugar.
Mensagem Mais do que simples ornamento ou resultado de uma prática bizarra, os ossos tirados da terra e colocados ali para a observação de qualquer pessoa trazem uma mensagem de libertação: todos são iguais diante da morte. Segundo os fiéis, Jesus foi enviado por Deus à Terra e morreu na cruz para livrar a Humanidade do pecado. ''Com a Sua ressurreição, todos os mortos renascem para a vida nova, mas apenas os justos chegam à glória nos céus e à eternidade''.
Independente das crenças e da fé religiosa ou da falta dela, todos os que visitam Kostnice se impressionam. Imaginar um lugar santo repleto de ossos humanos parece um tanto macabro. Mas, a naturalidade com que tudo foi disposto e a menção à irmandade fazem da visita à capela dos ossos um momento de contemplação. ''Todos chegam curiosos e saem ainda mais impressionados'', observou Klára Cinerová, atendente de informações, enquanto colocava na prateleira de souvenirs alguns crânios de plástico, que podem ser comprados por cerca de R$ 40,00.
A capela recebe cerca de 80 mil turistas por ano, a maior parte russos, alemães, tchecos e australianos, como as amigas Kylie Stuart, 25 anos, e Lorraine Cheesewright, 22. ''Adoramos o lugar, só o imaginávamos um pouco maior. Mas, tudo bem! Isso aqui é muito legal e bastante diferente. Vale a pena ver de perto e deixar o medo do lado de fora da capela'', comentaram. A visita custa o equivalente a 1 euro (R$ 3,80) para adultos. Estudantes e crianças pagam 0,70 de euro (R$ 2,50). É preciso pagar ainda para se fotografar ou filmar as esculturas: 1 euro e 2 euros, respectivamente.


