A eternidade é uma ferida a ser curada
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de junho de 1999
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
A experiência é simples. Coloque numa pocilga cuidadosamente fechada um homem e um porco. Diga ao homem alguma coisa como o mundo acabou, ou Deus morreu, ou mesmo vida é uma brincadeira sem sentido, ou até a eternidade é uma ferida e ser curada. Ao porco não diga nada.
Após alguns dias, abra a pocilga e poderá encontrar o homem de quatro, com o nariz enfiado na lama, disputando com o porco um sabugo de milho. O porco será o mesmo, íntegro, um porco.
Quando o um homem chega ao limite de sua existência enquanto idéia, a animalidade recupera rapidamente seu antigo espaço deixando claro que o humanismo espiritual é um sonho. E, normalmente, o sonho é substituído pelo pesadelo.
Este limite permeia o espetáculo Cuando la Vida Eterna se Acabe que a companhia espanhola La Zaranda apresenta até hoje no Filo. Não há uma história propriamente dita a ser contada, a montagem é um recorte narrativo que nada afirma, apenas sugere.
Cuando la Vida Eterna se Acabe é um espetáculo circular que circunda a si mesmo. Hermético e estranho. Através de uma atmosfera onírica, instaura um nebuloso pesadelo em que as miséria humanas são esfregadas esteticamente nos olhos do espectador e qualquer esperança é um inseto que perturba e incomoda.
La Zaranda coloca no palco uma estética própria, utilizando elementos expressionistas, onde o barroco se une ao bizarro sob o véu da loucura. Coloca peso sobre pedras. Faz com que fiapos de comicidade sejam servidos sobre tumores. A comunicação entre os atores/personagens é obscura. Simulam diálogos onde na realidade há monólogos interiores perturbados por fantasmas: o outro.
Geralmente, montagens construídas com alto grau de sugestão, que deixam o espectador totalmente livre para trabalhar como co-autor, correm o risco de deixar o mesmo espectador sem o mínimo solo firme para se apoiar. Nesse processo, em vez de assumir o leme do navio da fantasia, da criação, da viagem, ele pode optar em pular na água e nadar para a praia, para o mundo real.
Num ato corajoso, Cuando la Vida Eterna se Acabe acontece exatamente sobre a linha divisória que separa a ação de controlar o leme e a ação de atirar-se na água.


