São Paulo, 09 (AE) - Diante de Theo Angelopoulos, não há como deixar de citar Jorge Luis Borges: o cineasta grego filma, como diria o mestre argentino, para adoçar o tempo. Não há como esquecer também Andrei Tarkovski: Angelopoulos, como ele, é um escultor do tempo. É um senhor cineasta, mas está longe de ser uma unanimidade. Os americanos consideram seus lentos planos-sequências a antimontagem cinematográfica. É fechar os olhos à beleza. Angelopoulos é grande em "Paisagem na Neblina" e "Um Olhar a Cada Dia". Deixa um pouco a desejar em "A Eternidade e um Dia".
Não que seja um mau filme. Simplesmente, não é um grande Angelopoulos. No entanto, foi o filme que deu ao cineasta o prêmio que ele perseguiu a vida toda: a Palma de Ouro. "A Eternidade e um Dia" está saindo em vídeo pela Versátil. É o mesmo selo que também está lançando, em DVD, "Festa de Família", de Thomas Vinterberg, e "Subway", de Luc Besson.
Em Cannes, em 1995, quando recebeu o prêmio especial do júri por "Um Olhar a Cada Dia", Angelopoulos foi malcriado. Disse que, se aquele era o único prêmio que o júri tinha para lhe oferecer, então ele não tinha o que dizer. O discurso pegou mal, o filme era maravilhoso. Angelopoulos filmava o olhar de Ulisses. Para ele, o herói mitológico só tinha olhos para ruínas
passando pelas cidades destruídas na guerra da Bósnia.
A cultura grega segue sendo o alimento do cineasta: se em "Um Olhar a Cada Dia" Angelopoulos falou sobre o mito de Ulisses e em "Paisagem na Neblina", sobre o de Orestes, em "A Eternidade e um Dia" revisita Orfeu. O filme estrutura-se na relação do velho poeta, interpretado por Bruno Ganz, com o menino, órfão de guerra. O poeta encontra em casa a carta da mulher que morreu. Ela fala de um dia de verão, há 30 anos. Começa a viagem no tempo.
Vivendo somente por meio das palavras que escreveu nos livros, o poeta deixou escapar momentos decisivos de felicidade, que agora tentará recuperar com o garoto, pela eternidade (ou por um dia). É um filme sobre a proximidade da morte, com muitos momentos bonitos. Não tem a força de "Um Olhar a Cada Dia", mas é digno. "Cahiers du Cinéma" exagerou ao chamar Angelopoulos de cineasta pompier. Segundo a revista, o filme exibe a putrefação de um certo cinema de arte, feito de olho no manual do "grande autor" para vencer festivais.
"A Eternidade e um Dia". Grécia, 1998. Direção de Theo Angelopoulos, 122 min. Versátil, tel. (11) 263-7401

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