A eterna garota prodígio
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quarta-feira, 22 de abril de 1998
Cleide Cavalcante Agência Estado 
Arquivo FolhaShirley
Temple, na
festa do Oscar,
mês passado,
em HollywoodShirley Temple completa 70 anos hoje. Recatada, não lembra em nada o passado que ajudou a colocar nas páginas da história do cinema internacional. Como estrela infantil tive uma vida adorável. Eu achava delicioso meu trabalho e me divertia muito, declarou Shirley Temple em uma entrevista. A garota prodígio teve, sem dúvida, uma infância privilegiada, foi a mais popular atriz infantil de todos os tempos, cercada de mimos e glórias. Na época seus filmes eram garantia absoluta de sucesso de bilheteria, chegou, inclusive, a salvar alguns estúdios da falência.
Shirley Temple estreou aos quatro anos de idade, e chegou ao mundo cinematográfico no momento certo, em que as antigas fórmulas das produções já estavam mergulhadas em profunda decadência, e os Estados Unidos viviam o auge da Grande Depressão. Na última tentativa de alavancar os negócios e espantar a falência total, os produtores resolveram investir na participação de crianças nos filmes. Bonitinha, meiga, com cabelos cacheados, covinhas no rosto, e ainda, sapateava, cantava e era esperta, seu destino já estava traçado: Shirley Temple seria um sucesso.
ReproduçãoShirley Temple
estreou aos quatro
anos de idade
Na verdade, a mãe da atriz a criou para brilhar, não por resultado de uma educação esmerada, mas pelo seu desejo e vaidade. Sob gritos irados da mãe, a menina, ainda aos três anos, treinava dança durante horas sem parar. Vivacidade, Shirley, vivacidade!, era isso que ouvia da mãe, obcecada pela fama, o tempo todo. Foram 18 anos de carreira, cuja administração errada do pai a fez perder praticamente toda a fortuna, cerca de US$ 5 milhões. Descoberta em 1934, numa escola de dança e imediatamente contratada, fez pequenas participações até ser admitida pela Fox. Antes de completar seis anos, seu currículo já contava com 27 filmes, época em que já recebia diariamente mais de 500 cartas. Aos sete anos, a pequena notável quebrou recordes mundiais de bilheteria.
No total, foram mais de 60 filmes que marcaram uma carreira cheia de altos e baixos. A estrela de filmes como Pobre Menina Rica, Heidi, A Queridinha do Vovô, O Pássaro Azul, Agora e Sempre e Pequena Órfã evitou falar sobre passagens desagradáveis de sua vida em sua autobiografia, Child Star, lançada em 1988. Mas, publicamente, sabe-se de muitos momentos tristes em sua trajetória, por exemplo, o casamento desfeito, em 1949, com o galã John Agar, com quem teve uma filha: Linda Suzie Agar. E o fato de ter sido estuprada aos 20 anos por um produtor, quando seguia de trem para as filmagens de Mr. Belvedere Goes to College.
Na adolescência viveu o drama das investidas masculinas. O produtor Arthur Freed mostrou-se nu para a garota, que nunca havia visto coisa do tipo. Outro produtor, David Selznick, também fez tentativas grotescas. Já Kirk Douglas, preferiu convidá-la diretamente para a cama. O comediante George Jessel abriu a braguilha e exibiu-se. Entretanto, Shirley já estava esperta o suficiente para defender-se, nem que fosse no braço.
Nomes famosos, como Will Rogers, Gary Cooper, Carole Lombard, Ginger Rogers, Joan Crawford, entre outros, disputavam para estrelar em filmes ao lado da atriz. Fora das telas, a moça virou garota propaganda, e ajudou a vender roupas, carros, seguros, etc. Em 1950, Shirley se casou novamente com Charles Black. Com ele, teve duas filhas. Deixou o mundo da ficção para entrar na política. Foi a primeira mulher chefe do protocolo da Casa Branca, embaixadora dos Estados Unidos na Checoslováquia, vice-presidenta da Academia Americana de Diplomacia, representante da ONU e embaixadora em Gana, durante o governo de Richard Nixon.
Na época de Ronald Reagan, mostrou-se ávida defensora dos ideais republicanos, e acabou sendo premiada com uma embaixada em Praga. Mesmo no mundo diplomático, Shirley Temple ainda reclama de ser tratada como ex-atriz mirim. Talvez porque sua imagem tenha sido eternizada como a menina prodígio que ajudou os Estados Unidos a passar mais facilmente por um período tão difícil. Talvez porque a Shirley Temple que se vê hoje no mundo político ainda traz nos olhos a expressão de vivacidade que encantou gerações.


