A eterna batalha entre pobres e ricos
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de dezembro de 2001
Marcos Losnak<br>De Londrina<br> Especial para a Folha2 
O choque entre a pobreza e a riqueza é tema recorrente nas peças teatrais do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956). ''A Santa Joana dos Matadouros'', um de seus textos consagrados não foge à regra, trabalha com a polaridade do pobre e do rico com uma particularidade sutil - a de oferecer a confusão dos pólos para revelar uma maior compreensão de seus papéis.
Escrito em 1931, durante a Segunda Guerra Mundial e a sedimentação da Revolução Russa, Brecht conseguiu inserir numa mesma história a fúria destrutiva do capitalismo e o mecanismo religioso em propagar o conformismo. Joana, a protagonista da peça, é uma moça ingênua que se empenha em oferecer uma vida melhor aos operários. Em sua luta, acaba sendo derrotada pelos golpes baixos. A partir de uma simples morte, ela é transformada numa espécie de santa cuja função é reforçar a submissão dos pobre e oprimidos. Uma santa fabricada pelos ricos opressores.
Num primeiro contato, nos dias de hoje, o leitor poderá considerar ''A Santa Joana dos Matadouros'' um texto quase panfletário onde Brecht prega a revolução para a instalação da igualdade entre pobres e ricos, entre opressores e oprimidos. Essa impressão inicial não deve ser levada ao pé da letra sem uma leitura mais ampla. Isso fica claro na nova edição brasileira da obra publicada pela Editora Cosac & Naify com tradução do professor Roberto Schwarz.
A grande novidade do volume é a qualidade da tradução, que preservou a linguagem utilizada por Brecht no texto. Onde a linguagem popular se alterna, ou se confunde, com a lírica tradicional da literatura culta alemã. A peça, ambientada na cidade norte-americana de Chicago, revela as manobras de um empresário de um grande matadouro para elevar os lucros - dilapidando seus operário e fornecedores. Uma organização religiosa tenta reverter tal quadro e é comprada pelo empresário.
Em ''A Santa Joana dos Matadouros'' o dramaturgo alemão apresenta um lado pouco explorado em temas correlatos: a maldade e a opressão estão tanto no seio dos ricos exploradores como no seio dos pobres e explorados. E solta um axioma extremamente contemporâneo: ''Antes de transformar o mundo é preciso transformar o homem''.
Serviço: ''A Santa Joana dos Matadouros'', de Bertold Brecht, Cosac & Naify Edições, tradução e apresentação de Robert Schwarz, 214 páginas, R$ 30,00.


