A estética da subversão (*)
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de julho de 2001
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha 2 
Arte de loucos, arte incomum, art brut, arte selvagem, arte espontânea, naif, brincadeira de criança, arte de alienados mentais, arte de quem não está nem aí com a arte. Rótulos inventados para dar algum pé no chão para quem olha de longe, com medo de se entregar à força das pulsões primitivas, dos pensamentos originais, das atitudes ditas irracionais. O contrário da razão não é a loucura, é o medo.
Manifestação de quem precisa se assegurar de um fio terra qualquer para se conectar com a realidade, ligando-se à realidade através da fantasia, dos desejos, das metáforas, dos mistérios, do sagrado. Sublimação sexual. Sublimação da carne. Arte ou anti-arte ou não-arte ou desarte de quem transforma excremento em tinta, em massa de esculpir, pedaço de pau em nau, em nave, e com ela viaja para outros espaços, outros mundos planetas dentro da cabeça , mostrando quanto nossas preocupações cotidianas são mínimas: qual o resultado do futebol? O dólar subiu?
Planetas dentro da cabeça condenada ao eletrochoque, aos calmantes, às drogas, às químicas produzidas em laboratórios, ao hospício, à exclusão. Basta contrariar expectativas de padrão e normalidade. Que anormalidade! Planetas dentro da cabeça que insiste pensar, que se recusa a aceitar a passividade de um mundo pronto para o consumo.
Quem pensa na arte não cria. Assim como quem pensa no amor não o faz. E quem pensa em Deus não tem fé! Criar é como uma missão, uma vocação, uma provocação. Criar é dar vazão a um dom. Como um terremoto, uma tempestade, um furacão. Nasce com a gente.
Talvez o que há de mais expressivo em nós, seja o menos suntuoso existente a ser mostrado. Daí tantas vezes escondido. A começar pelo corpo, pelo sofrimento do corpo, pelas privações impostas ao corpo, pelo desejo de se livrar da própria história, pelo desejo de transformar a matéria, pelo desejo de se livrar do desejo, de se tornar puro espírito, de se transformar no objeto criado, no pensamento expresso, em puro toque fazer o dejeto transmudar-se em ouro. O sol em sol, o som em som, a luz em luz. Sem interferência da arte, da ciência ou da religião. Mais que re-ligar, Ser.
Mitos, símbolos, arquétipos, o nome primeiro do caos: deixe a velha poesia para trás, ladrão de fogo, cante a coragem do povo da tua aldeia, o som da tribo. O verdadeiro fato do mundo se passa por dentro dos sentidos, ali é gerado, nossa função no planeta é pari-lo. Sim, é no entorno desta simplicidade humana, demasiadamente humana que a qualidade de uma ação pode ser detectada. Uma caneta, um pano de trapo, algo jogado, tampinha de garrafa, sonho descartado por um consumidor afoito, idéia solta no espaço, são motivos mais do que suficientes para o nascimento de um mundo rico em sentidos (sensações que não podem ser ignoradas). Marcas que a tortura física não esgota. Muitas delas que os próprios olhos não vêem, mas a intuição presentifica e não deixa que se apaguem. O contrário da morte não é a vida, é o amor. Essa é a loucura da arte.
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(*) Extraído do título da tese de qualificação para o doutorado de Marta Dantas, sobre arte e loucura no pensamento de Jean Dubuffet


