ReproduçãoJacques Tati na pele do Sr. Hulot: passos de galinha para construir o melhor do humorAlguém se lembrará com saudades de Mr. Bean, daqui a 40 anos? Melhor: alguém se lembrará de Mr. Bean algum dia? Parece improvável, já que perenidade não soa como herança do personagem inglês. Dos grandes cômicos que fizeram história, quem sobreviveu inteiro para as novas gerações além de Chaplin, Keaton e a irmandade Marx? No limiar de um século em que ainda não se sabe com clareza como serão as oscilações humorais das sociedades, vez ou outra passar em revista algum desses clássicos do riso pode ser uma boa terapia preventiva. E entre os citados eleitos, quem também vem suportando revisão periódica e desde sempre garantindo bilhete para o terceiro milênio é Jacques Tati, o melhor comediante francês desde Max Linder e autor de obra tão curta quanto singular, solitária e absolutamente genial.
Grande Prêmio da Crítica Internacional no Festival de Cannes de 1953, ‘‘As Férias de Monsieur Hulot’’(em cartaz, a partir de segunda-feira, no Cine-Teatro Ouro Verde, em Londrina) foi o segundo e penúltimo grande sucesso de Jacques Tati, depois de ‘‘Carrossel de Esperança’’ (48) e antes de ‘‘Mon Oncle’’. Diretor, co-roteirista e ator de seus filmes, Tati criou um tipo genuinamente francês e universal a um só tempo, herdeiro legítimo da melhor tradição da pantomima e do vaudeville: Monsieur Hulot, que atravessa toda a enxutíssima filmografia do cineasta, pode ser considerado um cult e influência para profissionais de menor calibre. Caso específico de Rowan Atkinson, o Mr. Bean.
Poeta do cotidianoClassemédia, alto, magro, cachimbo na boca, metido num velhíssimo carro (Hamikar, modelo 1924). É assim que M. Hulot se apresenta ao público e aos futuros companheiros de férias em um hotel em algum lugar do litoral da Bretanha, logo na abertura de ‘‘Les Vacances de M. Hulot’’. O personagem, ao contrário do vagabundo de Chaplin, jamais toma partido de alguma coisa ou de alguém. É um perturbador ingênuo. Com um peculiar passo de galinha em devaneio, sempre com as calças no meio das canelas, Hulot anda muito e observa, apenas. As imagens ele as coloca ao alcance do espectador, que passa a contar sua própria história a partir dos elementos postos a disposição (gags, impressões de viagem), quase sempre fáceis de reconhecer quando já se foi à praia algum dia. Tímido, distraído, gentil e acima de tudo solitário, Hulot radiografa criticamente o grupamento humano que se instala no hotel. Chega a flertar com uma jovem hóspede, mas isso também é parte da estratégia de observação. A acomodação burguesa é observada liricamente, sem nenhuma intenção de condenar aqueles estranhos adultos flagrados em esquisito veraneio.
O humor praticado aqui é amplamente visual. As palavras são usadas apenas como ruídos e quase nunca apresentam significado em si. Tati, ele mesmo, usa apenas uma palavra - Hulot. Ele não fala, não se comunica oralmente; somente traduz por gestos sua existência, seu sentimento, suas opiniões. De certa forma Hulot simboliza o desprezo pela inutilidade das palavras para a comunicação humana. Mas nem por isso deve-se deixar em segundo plano a trilha sonora. Há divertidíssimos gags sonoros contrapostos ao silêncio do personagem. O vaivém da porta do restaurante, a música que morre na vitrola desligada, o irritante bater da bola de pingue-pongue, o barulho do velho carro de Hulot, os sons dos fogos de artifício. Embora quase sempre mudo, Tati constrói paralelamente uma comédia auditiva, uma espécie de análise, comentário e contraponto audiovisual.

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