Há uma esquina icônica que pulsa modorrenta no coração do Brasil. Ela não tem nada de especial. É ordinária no sentido enciclopédico da palavra, mas ao mesmo tempo tem tudo. Enfrentei ladeiras implacáveis para chegar até lá. No início, esperava ser recompensado com mais. Uma ponta de decepção começou a bater diante de tanta simplicidade quando, de repente, me dei conta de que aquilo era exatamente o que eu precisava encontrar.

O cruzamento mais melódico do Brasil não precisa de monumentos suntuosos ou avenidas largas. Precisa apenas disso: duas ruas comuns, um banco para sentar e a imensidão de uma serra ao longe, preenchendo aquele belo horizonte. Na minha visita, o único luxo ficou por conta da voz de Bituca, ecoando baixinho em um alto-falante, se espalhando com o vento fino. Nada demais para ver, tudo para se sentir.

O encontro das ruas Paraisópolis com Divinópolis não é instagramável. Poderia ser a esquina da minha casa ou da sua. O tal do Clube da Esquina nada mais era do que uma calçada onde alguns jovens geniais de Santa Tereza se reuniam para tocar violão.

Ali, em um pôr-do-sol de inverno, fiquei a lembrar dos incontáveis fins de tarde e noites em que passei sentado sobre um meio-fio igual àquele. Só que em vez de Santa Tereza, era Santa Maria; em vez de Paraisópolis e Divinópolis, Emílio Précoma e Agnaldo Pereira Lima. Minha Beagá era Wenceslau Braz, uma cidade paranaense que leva o nome de um ex-presidente mineiro. No lugar da Serra do Curral, era o Pico Agudo que se destacava no ‘novo horizonte’, primeiro nome de Wenceslau.

Éramos jovens aprendendo os primeiros acordes em nossos violões. O meu, um Di Giorgio 1978, com a cor clássica de madeira envernizada. O do meu amigo Reginaldo, um simpático Tonante verde. Não tínhamos um décimo do talento de Milton Nascimento, Lô Borges e toda a turma de Minas. No início, tocávamos a maior parte do tempo com as cordas meio desafinadas.

Lembro que quando a gente conseguia afiná-las com precisão, ficávamos só passando a palheta sobre as cordas para ouvir aquele som, que tinha algo de mágico, algo de angelical. É uma sensação difícil de explicar, mas que senti novamente quando comecei a ouvir Milton Nascimento com atenção. Dizem que a voz de Deus é a de Morgan Freeman, mas de uns tempos pra cá, fico com a do Bituca.

O Lô também é um capítulo à parte. Quando passei em frente à casa da família dele, próxima à esquina do clube, me deu uma vontade de bater palma e chamar por ele:

- Ô, Lô, sai aqui fora. Traz o violão — igual eu fazia com meus amigos.

Havia sete meses que Lô Borges tinha partido. Aos 73 anos, foi embora sem envelhecer. Com aparência e alma de menino, dizia que suas músicas eram sobre juventude, sobre sonhos que não envelhecem. “Músicas malucas sobre lugares distantes”, definiu o filho dele.

Terminei a noite no icônico Bar do Bolão com um misto de felicidade e um nó na garganta. Feliz pela oportunidade de conhecer um pedaço tão importante da música popular e da cultura brasileira. Triste por ver como o país mudou tanto, para pior, nas últimas décadas. Uma escalada de ódio onde não existe espaço para a leveza de jovens nas calçadas, com seus violões; para a poesia bem trabalhada dos poetas daquela geração.

Mas em meio a tantos gases lacrimogênios, o afeto do jeitinho mineiro soa como um anestésico para dias difíceis. De repente, ouço a voz doce de uma pessoa desconhecida:

— Cê tá bão, fi?

E tem como não estar depois de uma pergunta dessa?

Retornei a Londrina com um pedaço de Minas comigo. Hoje à noite vou ao Valentino assistir ao show Ouro de Minas, comandado pelo sobrinho de Lô, Rodrigo Borges. Vão trazer o repertório do Clube da Esquina. Pequenos fragmentos de luz em tempos tão bicudos.

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