'A Espiã' é cinema como deve ser
A mente privilegiada por trás de clássicos contemporâneos sobre violência e erotismo como ''Robocop'', ''O Vingador do Futuro'', ''Instinto Selvagem'' está de volta. E desta vez dispara todo seu competente arsenal cinematográfico a partir do país natal, a Holanda, com este ''A Espiã'' que estréia hoje em Londrina (veja a programação de cinema na página 2). É o filme mais caro já produzido naquele país: 16 milhões de euros.
Após uma longa e bem-sucedida carreira nos EUA, o diretor Paul Verhoeven marca seu retorno à terra de origem com um trabalho condimentado com os ingredientes que os cinéfilos aprenderam a identificar em sua filmografia. Nesta produção oficialmente selecionada para o Festival de Veneza de 2006, Verhoeven consolida e amplifica duas facetas de sua maneira de encarar o cinema.
Por um lado, constrói um notável épico de tom, visual e estrutura old fashioned, à moda da Hollywood clássica, com variada e segura incursão a vários gêneros populares - cinema de guerra, espionagem, erótico, aventura, thriller político. Por outro lado, propõe um discurso contraditório, politicamente incorreto, questionador, pessimista, livre das convenções e preconceitos sempre ligados à grande maioria dos filmes ambientados durante o Holocausto.
A história, baseada em crônicas oficiais, acontece na Holanda em 1944, onde a capital Haia está sob ocupação alemã. Entre tantas judias que temem pela vida, ali está a sensual e corajosa cantora Rachel Stein (a belíssima atriz holandesa Carice Van Houten). Depois de escapar de morte certa durante tentativa de fuga, ela se torna ativista da resistência, e recebe a missão de se infiltrar no serviço de segurança alemão. Torna-se íntima do chefe da Gestapo, Muntze (Sebastian Koch, que está no multipremiado ''A Vida dos Outros'', em breve em Londrina), uma espécie de quase galã saído de um melodrama romântico.
É neste momento que a controvérsia se instala, com situações dúbias que são afinal o eixo temático do filme. Rachel se apaixona por Muntze. Os maus não parecem ser tão maus assim, os bons não se mostram demasiadamente bons - com certeza são torpes e ingênuos - e as regras do jogo mudam com tanta frequência como as ideologias ao sabor das conveniências.
O roteiro então carrega na tendência ao niilismo, onde a medida de desconfiança cresce ao redor das pessoas envolvidas em descrença e mentiras num mundo obscuro e corrupto. Verhoeven dirige um olhar impiedoso, visceral e desencantado às misérias de uma sociedade holandesa dominada pelo antisemitismo e pelo revanchismo durante aquele período infame.
Banal e diabólico. Entre estes extremos parece situar-se o cinema deste cineasta atípico. São duas situações, e o espectador deve mesmo oscilar entre uma e outra. Melhor: que conviva com ambas. Banal porque sua estética, o seu fazer cinema aparece com simplicidade, quase obsoleto. Diabólico porque este ateu militante desperta horror entre os crédulos cuja hipocrisia é exposta e execrada nos complexos argumentos de filmes como ''A Espiã''. (C.E.L.J.)





