A esperteza em primeiro lugar
A Vida É Bela, a produção que desbancou Central do Brasil ao ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, vai além do apelo fácil da fábula e é mais que produto puro e simples do lobby da indústria cinematográfica. O personagem central da história, Guido Orefice, vivido na tela pelo roteirista, diretor e ator Roberto Benigni, encarna um dos arquétipos mais universais do imaginário humano, encontrado em culturas dos cinco continentes. No Brasil, este arquétipo alimentou a imaginação de gerações de brasileiros, por pelo menos dois séculos, sob o nome de Pedro Malasartes.
Algumas das artes de Guido em A Vida É Bela são transcrições quase literais de aventuras de Malasartes e seus muitos irmãos. Quem desconfia deve ler, por exemplo, a história Na Terra dos Sabichões, recolhido da tradição popular por Hernâni Donato em Novas Aventuras de Pedro Malasartes e publicada pela Editora Melhoramentos em 1967. Ali, a capacidade incomum que Malasartes apresenta para decifrar e propor charadas é o que lhe garante comida e bebida de graça e trânsito livre no universo dos poderosos, como acontece com Guido. Aliás, a estrofe final de outro livro, Malasaventuras, um cordel escrito em redondilhas por Pedro Bandeira e publicado pela Editora Moderna em 1984, se encaixa perfeitamente nas cenas do herói travesso de A Vida É Bela: Depois de tanta aventura/ Vai ficar esta certeza:/ quem não tem força e poder/tem de usar sua esperteza.
Benigni não foi o único neste final de século a descobrir que Pedro Malasartes e seus irmãos estão vivos e mais espertos do que nunca. Há três anos, um grupo de professores paulistas e cariocas voltou a se debruçar sobre as artimanhas de Malasartes depois de uma casualidade ocorrida num Seminário de Literatura e Língua Portuguesa na cidade de Rezende, no Rio de Janeiro. A casualidade foi proporcionada pelo professor Fábio Queiróz, da rede pública de ensino de Paulínia, interior de São Paulo. Em busca de personagens que se adaptassem a um novo método de ensino de Literatura idealizado por ele, Queiróz encontrou Pedro Malasartes. Eu conhecia muito pouco sobre este jovem espertalhão e travesso. Mas logo me fascinei por ele, lembra.
Queiróz levou o personagem para o seminário de Rezende e até ele ficou surpreso com o resultado. Em todas as salas de aula onde aplicou seu método, Malasartes rapidamente se transformava no herói preferido. E olhe que ele competia ali com modernos heróis do cinema, do gibi e do videogame, apresentados não só por mim mas por diversos professores, conta. O poder de Malasartes chamou a atenção de outros professores paulistas e cariocas que decidiram formar um grupo especial de estudo para investigar mais a fundo este personagem mítico. Este trabalho conjunto resultou num livro que o grupo pretende publicar ainda este ano e que faz uma prospeção universal do mito do Malasartes.
O grupo coordenado por Queiróz descobriu, entre outras coisas, que o mesmo Malasartes com as mesmas histórias conhecidas desde o tempo de nossos bisavós existe há séculos em quase todos os países e culturas do mundo. Na região do Cambodja, na Ásia, é conhecido pelo nome de Kuong-Alev; no Indostão, entre os meninos bengalis, chama-se Paumohan Chattergi; na África, onde o maior número de histórias do personagem foi encontrado nas tribos gurmatié, recebe o nome de Foumtinndouha. Nos países do Norte, Centro e Leste da Europa é chamado de Eulenspiegel; na Itália, de Bertoldinho. Na Espanha e América espanhola seu nome é a tradução literal do Malasartes português: Pedro Urdemales. Nos países árabes, o personagem se confunde com um dos mais conhecidos nomes da mitologia popular, Nasrudin, personagem central das chamadas histórias da tradição do sufismo, uma escola mística popularizada no Brasil pelo escritor Paulo Coelho.
O mito de Malasartes aportou em terras brasileiras com os colonizadores portugueses que, por sua vez, o receberam dos espanhóis. Pedro Malasartes entrou na Península Ibérica através dos árabes, diz Queiróz. No Brasil, as histórias de Malasartes se espalharam rapidamente por todos os Estados e adaptaram-se aos mais diferentes tipos, paisagens e culturas regionais. Há registros de Pedro Malasartes do Oiapoque ao Chuí. Em alguns casos, ele é descrito como uma caboclo esperto, em outros como um menino ou, ainda, como um cavaleiro dos pampas. As histórias também se ambientam em diferentes paisagens, na mata fechada, nas montanhas de Minas Gerais, em regiões ribeirinhas ou na beira do mar.
Nos mais diversos países e debaixo de tantos nomes e costumes diferentes, as histórias são incrivelmente semelhantes às do nosso Malasartes, afirma Queiróz. Para ele, o fenômeno é tão universal que não pode ser explicado pela pura e simples transmissão oral de histórias através dos séculos e das fronteiras. O que está na alma e no espírito de Malasartes é um sentimento universal. Trata-se de um arquétipo, um sentimento que existe em todas as crianças, independente de raça, religião e cultura, analisa. Os traços mais importantes de sua personalidade e a estrutura narrativa de seus contos sempre foram utilizados por contadores de histórias do mundo todo para fascinar crianças e adultos. Ele está sempre do lado dos fracos e desafia os poderosos. Nunca usa força física e violência, pois é pequeno, como uma criança. Usa apenas a inteligência, a argúcia e a esperteza para se dar bem. Até o diabo, em muitas de suas histórias, ele consegue enganar, conta. Além do mais, só caem nas armadilhas de Malasartes aqueles que são maus, ambiciosos ou invejosos.Paulo San Martin
ReproduçãoDesenho do livro Novas Aventuras de Pedro Malasartes: herói popular sobrevive em meio aos poderosos graças à esperteza e às charadasEspecial para a Folha





