A esperança no espelho
Questões sociais sempre estiveram no centro das conversas da família de Gustavo Carneiro. A convivência desde a infância com pessoas que moravam em comunidades carentes próxima à sua casa fez com que o paranaense natural de Cornélio Procópio nunca abandonasse suas raízes, até mesmo durante a adolescência, quando viajou para diversas partes do mundo para trabalhar como modelo fotográfico. Depois de trocar os holofotes dos estúdios e passarelas pela vida atrás das lentes das câmeras, ele resolveu compartilhar seus conhecimentos com moradores de favelas de Londrina e região. Ministrando oficinas de produção de vídeos e fotos, o repórter fotográfico que integra a equipe da Folha acabou criando o projeto Cores do Gueto, através do qual registra imagens de crianças em momentos lúdicos do cotidiano.
Na tarde de hoje, Carneiro promove a terceira exposição fotográfica da série Cores do Gueto. Trinta imagens compõem a mostra que será aberta às 14 horas, no Jardim Marieta (localizado na zona norte da cidade) e que foi organizada pelo fotógrafo Jota Oshiro. Durante o evento, o público terá a oportunidade de conhecer algumas das histórias que são contadas através das imagens expostas, conversar com moradores locais e participar de uma festa julina com direito a quitutes típicos, como bolo, pipoca e quentão, além de assistir a shows de rap.
Carneiro enfatiza que o principal objetivo do projeto é promover um diálogo entre os moradores de favelas e pessoas de classes sociais diferentes. "É uma oportunidade de encontro entre pessoas que provavelmente não trocariam um oi na rua, mas que durante a exposição podem conversar e se tornarem amigas, mesmo que seja por um único dia. E alguma coisa acaba mudando em ambos os lados", salienta.
Segundo o repórter fotográfico, a ideia do projeto surgiu espontaneamente. "Sempre ouvi rap e acabei me aproximando de alguns grupos de Londrina que moravam em guetos. Comecei a promover oficinas para ensiná-los a gravar videoclipe e a produzir fotos para as capas de CDs e nessa convivência sempre registrava imagens da rotina das favelas. Revendo parte deste material, percebi que havia um número muito grande de fotografias de crianças e então resolvi fazer as exposições. A primeira delas aconteceu em 2014", detalha.
A alegria das crianças em meio a um universo tão carente foi o que mais chamou a atenção do fotógrafo. "As crianças da favela têm um inocência e uma felicidade diferente das que vivem fora dali. "No centro da cidade, muitos pais acabam jogando o celular na mão dos filhos para que ele fiquem quietos. Essa cena de pais e filhos mexendo no celular é muito comum. Já na favela as brincadeiras infantis são muito mais divertidas, elas jogam bola, viram piruetas e fazem bagunça com a alegria estampada no rosto. Não sei se é uma alegria maior, mas com certeza a forma de expressá-la é mais evidente", avalia Carneiro.
O fotógrafo defende que as crianças representam a chance de mudança de uma realidade cada vez mais dura. "As pessoas que vivem em favelas ainda sofrem muito preconceito. Muitas vezes basta informar o CEP da rua onde moram para que a vaga de emprego se feche para elas. Além disso, todos os fatores contribuem para a criminalidade e apesar disso a maioria esmagadora dos moradores dessa comunidade consegue manter uma vida digna. Acho que qualquer oportunidade que a gente possa apresentar para essas crianças, seja através da música, da fotografia ou qualquer outro tipo de arte é bem-vinda. Acredito que as crianças são o passaporte para a esperança", argumenta.
Ele destaca que além de abrir um debate para questões sociais, a exposição também será usada como uma campanha em prol dos moradores do Jardim Marieta. "As pessoas que doarem cobertores e agasalhos poderão trocá-los por imagens do projeto Cores do Gueto", informa Carneiro ao explicar que a comunidade fica algumas ruas abaixo do posto de gasolina localizado em frente ao cemitério Jardim da Saudade.
As fotografias que compõem a mostra foram selecionadas pelo fotógrafo Jota Oshiro, que tem muita experiência na produção de exposições e para esse trabalho selecionou as imagens levando em conta o padrão de cores e a intenção de cada fotografia.
SERVIÇO
Exposição Cores do Gueto 2016
Quando Hoje, às 14 horas
Onde - Rua José Ruzon, 691 - Jd Marieta
Gratuito





