Semanas atrás o dramaturgo londrinense Mário Bortolotto recebeu o Prêmio Shell 2000 de melhor autor com a peça ‘‘Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet’’. Ironicamente, recebeu uma das mais respeitadas premiações do teatro brasileiro com um texto escrito há dez anos, em 1990.
Esse fato revela que sua obra já estava definida, com seu estilo particular, há muito tempo. O Cemitério de Automóveis, capitaneado por Bortolotto, trouxe ao Filo/2001 duas recentes montagens da companhia, ‘‘O Cara Que Dançou Comigo’’ e ‘‘Getsêmani’’. Lado a lado, elas podem oferecer um leitura temporal do trabalho da companhia. ‘‘O Cara Que Dançou Comigo’’, por exemplo, foi escrita em 1989, e ‘‘Getsêmani’’ é o mais recente texto do dramaturgo.
‘‘O Cara Que Dançou Comigo’’ apresenta a eterna relação entre amor e ódio. A rota mais propagada do amor que se transforma em ódio é substituída pelo ódio que se converte em amor, um caminho individual e repleto de espinhos. ‘‘Getsêmani’’, por outro lado, mostra como a violência pode se transformar na última alternativa de se viver num mundo melhor. A dissimulação da cultura sob os mandos e desmandos da grana assume a forma de um monstro sem forma definida. Um animal que não se preocupa em devorar as pessoas, mas limitar suas possibilidades de vida e, o mais preocupante, inibe uma visão mais ampla da vida com suas múltiplas forças.
Os personagens de Botolotto lutam contra um mundo que merece descrédito. Eles não acreditam no que é imposto de maneira geral e disfarçada e partem, da maneira mais necessária possível, para o combate. Um combate sempre fadado ao fracasso. Deixando claro que o processo de combate é justamente o percurso da vida, não a esperança de alcançar o objetivo final, ou seja, a vitória. Conscientes da derrota, fazem do descaso e da ironia um instrumento de compensação.
Nesse contexto, o autor insere boas doses de humor que funcionam como ferramentas da ironia. Um jogo dúbio onde o espectador tende a escolher o caminho do riso. Entre a tensão e o relaxamento, o último sempre leva vantagem de consenso teatral que invariavelmente cai nos pés da comédia. Bortolotto trabalha no constante ritmo entre a dor e o riso, entre esperança e desesperança, entre amor e conflito. Nesse jogo, o real conteúdo apresentado permanece atrás das aparências. Em síntese: ironiza com espumas de humor as dores humanas. A espuma pode despertar a atenção imediata, mas quando ela abaixa, tudo parece diferente. O real torna-se amargo e desesperançado.
O Cemitério de Automóveis sempre trabalhou, em suas montagens, com uma estética crua e despojada. Sua estrutura mestra e determinante repousa sua carga sobre a dramaturgia, e nessa proposta cênica, o ator assume o papel de principal sujeito cênico. Durante anos e anos a companhia aprimorou o trabalho de autor e continua aprimorando, mas ainda não chegou ao ponto ideal de conjunto que a própria dramaturgia exige.
Atualmente, Mário Bortolotto é apontado como a grande novidade da dramaturgia ‘‘marginal’’ – no sentido de ‘‘não oficial’’ – brasileira. Detentor de um estilo próprio e único, fruto de um trabalho de quase 20 anos, ele fala de maneira simples e direta de coisas que massacram o cotidiano. Um cotidiano que, como na construção de um muro, faz o papel dos tijolos. Onde as peças cerâmicas são unidas por uma argamassa sem nenhum sentido lógico. Onde cada tijolo precisa lutar para ser o que é no muro do possível.

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