A esperança na beira do abismo
Em comemoração ao centenário de nascimento de J. D. Salinger, a editora Todavia começa a publicar as obras completas do escritor
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 31 de julho de 2019
Em comemoração ao centenário de nascimento de J. D. Salinger, a editora Todavia começa a publicar as obras completas do escritor
Marcos Losnak - Especial para a Folha2 
No ano em que se comemora o centenário de nascimento de J. D. Salinger (1919 – 2010) aconteceu de tudo. De vazamento de textos inéditos na internet à descoberta de originais falsos. Tudo indica que a curiosidade sobre o escritor mais recluso e arredio da literatura norte-americana continua ativa.
A boa notícia é que a editora Todavia começa a publicar no Brasil as obras completas do autor em novas traduções. Ao falecer aos 91 anos, Salinger deixou apenas quatro livros publicados em nome da reclusão e do silêncio.
Ao publicar seu primeiro livro em 1953, “O Apanhador no Campo de Centeio”, conquistou uma fama inesperada. A obra se tornou um clássico da literatura norte-americana e vendeu 73 milhões de exemplares mundo afora.
A fama não fez bem para Salinger, que rompeu com o mundo. Nunca mais concedeu entrevistas, nunca mais se deixou ser fotografado e se isolou num sítio afastado do interior de New Hampshire. Segundo a lenda, recebia a tiros de espingarda jornalistas, visitas, parentes e carteiros. Criou em torno de si uma aura de isolamento radical.
Publicou seu último livro, “Para Cima Com a Viga, Carpinteiros”, em 1963. Depois mais nada. Não deixou de escrever, mas prometeu nunca mais publicar seus escritos. E cumpriu a palavra até falecer em 2010.
A primeira edição brasileira de “A Apanhador no Campo de Centeio” foi lançada pela Editora do Autor em 1965 e até agora era a única versão disponível. A editora Todavia está lançando a obra com uma nova tradução realizada por Caetano W. Galindo. A edição resgata a capa da primeira edição de 1953 realizada por E. Michael Mitchell. Até o final do ano a editora pretende lançar “Nove Histórias” (1953) e “Franny & Zooey” (1961). No próximo ano está previsto o lançamento de “Para Cima Com a Viga, Carpinteiros & Seymour – Uma Introdução” (1963).
Por muito tempo “O Apanhador no Campo de Centeio” foi considerado um romance sobre a rebeldia juvenil. Mas com o passar das décadas se tornou uma obra sobre a falsa perspectiva de esperança que o mundo adulto oferece aos jovens.
A obra traz a voz de Holden Caulfield, um garoto de 16 anos, narrando diretamente ao leitor, numa linguagem pautada pela oralidade, suas desventuras. Após ser expulso da escola, ele vaga sem destino pela cidade de Nova York adiando sua volta para casa, quando será necessário comunicar aos pais que foi expulso novamente da escola.
Em suas perambulações, entra em contato com todo tipo de pessoa e expõe uma coleção de falsidades de hipocrisias sociais. Com humor, propõe um idealismo que não encontra no mundo real. Ao mesmo tempo, vive um ressentimento diante da sociedade que questiona. Suas ações são simultaneamente rebeldes e inseguras. Possui a consciência de que aquilo que realmente deseja, o mundo não pode oferecer. E o que o mundo possui para oferecer, não lhe interessa.
Trata-se da voz de um jovem de saco cheio de todos, de tudo e mais alguma coisa. Não uma pessoa totalmente inadaptável, mas alguém que não enxerga nenhum sentido no esforço e no trabalho exigido para a adaptação. Vive a contradição de querer fazer parte do mundo adulto e, ao mesmo tempo, ter a consciência que esse mundo é sustentado por farsas e falsidades. E seu mecanismo de defesa torna-se a bravata.
Diante da falta de perspectiva em viver uma existência plena, diante do engodo que o mundo adulto oferece, Holden Caulfield vislumbra uma esperança simbólica: “Fico imaginando um monte de criancinhas brincando de alguma coisa num campo imenso de centeio e tal. Milhares de criancinhas, e ninguém por ali – ninguém adulto, assim – fora eu. E eu estou parado na borda de um penhasco maluco. O que eu tenho o que fazer é que eu tenho que pegar todo mundo se eles forem cair no penhasco – quer dizer, se eles estiverem correndo e não olharem pra onde vão eu tenho que aparecer de algum lugar e apanhar eles. Era a única coisa que eu ia fazer o dia todo. Eu ia ser o apanhador no campo de centeio e tal. Eu sei que é doido, mas é a única coisa que eu queria ser de verdade. Eu sei que é doido.”
Serviço:
“O Apanhador no Campo de Centeio”
Autor – J. D. Salinger
Editora – Todavia
Tradução – Caetano W. Galindo
Páginas – 256
Quanto – R$ 59,90


