A esperança é uma droga pesada
Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
Salvar a vida do próximo é mais fácil do que salvar a própria vida. Esse é o destino de Fank Pierce, personagem-narrador de Vivendo no Limite, romance do norte-americano Joe Connelly. Pilotando uma ambulância de atendimento de emergência, banhado de suor e sangue, Frank é um paramédico atormentado pela proximidade da morte. Após cinco anos de trabalho noturno, é um homem esgotado. Vivendo no limite entre vida e morte, passa a viver seu próprio limite entre loucura e sanidade.
Lançado pela Companhia das Letras, o cenário de Vivendo no Limite é o lado miserável de Nova York, uma região chamada de Cozinha do Inferno (Hells Kitchen) povoada por bêbados, mendigos, loucos, prostitutas, drogados, sem-tetos, traficantes e miseráveis de toda a espécie os excluídos do sonho americano. São essas ruas que Fank percorre com sua ambulância prestando atendimento de emergência àqueles próximos da morte. Em geral vítimas de overdoses de álcool e drogas, ataques do coração, acidente de carro, tiros, facadas, espancamentos e outras coisas. Sua missão é recolher os moribundos, prestar-lhes os primeiros socorros e descarregá-los no hospital mais próximo, o Nossa Senhora da Misericórdia, mais conhecido como Nossa Senhora da Miséria, ou para os íntimos apenas Miséria.
Frank é testemunha de uma violenta miséria social, de uma miséria humana que espalha mortos e feridos pelas escadas e esquinas. Testemunha de desgraças urbanas e ao mesmo tempo anjo salvador de suas vítimas. Palavras dele: Salvar a vida de alguém é como se apaixonar. É a melhor droga deste mundo. Durante dias, às vezes semanas, você anda pelas ruas vislumbrando o infinito em tudo o que vê. O tempo se retarda e distende, e você começa a achar que se tornou imortal, como se tivesse salvado sua própria vida. O que antes era tão criminosamente fortuito de repente ganha um sentido, uma razão e uma ordem em todos os detalhes. Deus estava de passagem por que negar que, por uma momento, ali, Deus foi você?
Em seu turno de trabalho de 12 horas, que começa no início da noite e termina na manhã seguinte, Frank sofre frente ao fato de que o fracasso é maior que o sucesso: Dar-se crédito quando tudo deu certo não funciona em sentido contrário, quando as coisas dão errado. Embora você possa ficar por algum tempo obcecado a respeito do que poderia ter feito de diferente, a providência mais importante depois de uma catástrofe é transferir a culpa: a família era maluca, o equipamento quebrou, o paciente fedia, o sujeito no balcão demorou demais para servir o meu café. Distribuir culpa é uma ferramenta essencial da sobrevivência do paramédico, além de ser um bem valioso em qualquer carreira pós-paramédica. O deus do fogo do inferno é um papel que a maioria de nós não gosta de representar.
Após cinco anos tentando salvar pessoas à beira da morte, Frank é ser humano em frangalhos. Sua rotina se transforma em trabalho, bebida e cama. Todos os dias pensa em pedir demissão, abandonar o ofício que o sufoca. Ao mesmo tempo não consegue deixar a ocupação esse é seu paradoxo. Sabe que todos seus problemas são fruto de seu emprego, mas não consegue se livrar dele. Como um imã, o trabalho atrai sua loucura. Como um imã, sua loucura atrai o trabalho. Nesse processo, é capaz de salvar a vida de um indigente espancado e, logo em seguida, cometer eutanásia.
Abandonado pela mulher devido a seu mergulho suicida como paramédico, Frank começa a ser visitado pelos fantasmas das vítimas que não conseguiu socorrer. Em especial é constantemente visitado pelo fantasma de uma garota que não conseguir salvar, por um erro, de um ataque de asma. A moça que ele, em suas palavras, ajudou a matar, está presa em sua mente e o atormenta como um carrapato.
Vivendo no Limite está longe de ser um relato puramente ficcional. É totalmente baseado em fatos reais, através da experiência do autor. Joe Connelly trabalhou por quase dez anos como paramédico pilotando uma ambulância pelos piores bairros de Nova York. O romance nasceu após realizar um curso de escrita literária na Universidade de Columbia. Com 36 anos de idade, Connelly, com uma única obra, tornou-se a revelação literária de 1998 da literatura norte-americana.
O cineasta Martin Scorsese leu o livro e não vacilou, transformou-o em filme. A mais nova obra de Scorsese, Vivendo no Limite (Bringing Out The Dead) entrou em exibição em circuito nacional na última sexta-feira com Nicolas Cage no papel principal. O diretor preservou quase na íntegra a história de Joe Connelly. Apesar de conter apenas uma pequena parcela dos fatos narrados no texto original, Scorsese conferiu ao filme a mesma velocidade angustiante do romance. Escolheu as passagens mais emblemática e aquelas temperadas com humor negro.
Com uma narrativa de clima opressivo, Joe Connelly pinta os paramédicos como pessoas que conviveram tanto com a vida no limite da morte que passam a não mais perceber, psicologicamente, os limites entre razão e loucura. Ao mesmo tempo que apresenta uma história angustiada, apresenta o humor negro inerente a algumas situações. Como se a vida fosse tão absurda quanto a morte. Talvez essa seja a síntese de Vivendo no Limite. Vida e morte como beco sem saída e o clímax dos dramas urbanos banhados de miséria está no absurdo.
Nesse processo, como descreve o narrador Frank, seus olhos estão abertos, você está em pé, ereto, mas o que você vê não se encaixa bem no que você sabe que está ali, como se as fechaduras da percepção tivessem sido trocadas, como se você tivesse olhos extras atrás da cabeça mas eles estivessem olhando para dentro. E na violenta erupção de vida que é a morte, todos os corpos deixam sua marca.
Vivendo no Limite não pode ser confundido como nenhum Plantão Médico. Carregado de autenticidade e vitalidade, o romance de Joe Connelly passeia pelas sombrias ruas da vida para revelar que tudo morre, física ou mentalmente. E o remédio mais eficiente pode ser encontrado numa antiga palavra atualmente esquecida: aconchego.
Vivendo no Limite (Bringing Out The Dead) de Joe Connelly, Editora Companhia das Letras, tradução de Laura Teixeira Motta, 344 páginas, R$ 29,00.Chega às livrarias Vivendo no Limite, romance de Joe Connelly que inspirou o novo filme de Martin Scorsese
Reprodução/detalhe capa do LivroRomance de Connelly, revelação da literatura norte-americana, é baseado em fatos vividos por eleArquivo FolhaScorsese dirige Nicolas Cage em uma das cenas de Vivendo no Limite: filme e livro têm clima angustiante





