A esperança abraçando o desespero
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de maio de 2011
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
No último domingo o Cemitério de Pilar, localizado a 54 km de Buenos Aires, recebeu um corpo com quase 100 anos de existência. Um corpo que presenciou as principais contradições do século 20. Um corpo que acreditava que a humanidade somente poderia perceber sua verdadira dimensão no interior da utopia.
Era o corpo do escritor argentino Ernesto Sabato, falecido no sábado, aos 99 anos de idade. Nascido em 1911 em Rojas, província de Buenos Aires, ele completaria 100 anos em 24 de junho próximo.
O velório foi realizado no Clube Atlético Defensores, onde Sabato, mesmo com a saúde debilidade, costumava jogar dominó regularmente: ''Quando morrer, quero ser velado aqui, para que as pessoas do bairro possam me acompanhar nesta viagem final. Quero que se lembrem de mim como um vizinho, às vezes rabugento, mas, no fundo, um cara legal.''
Considerado um dos maiores escritores da literatura argentina ao lado de Jorge Luis Borges Borges, Adolfo Bioy Casares e Julio Cortázar, a trajetória de vida de Ernesto Sabato foi a história de alguém que se agarrou à literatura como um náufrago se agarra a uma pequena ilha em alto mar. A história de alguém que, após conhecer cada pedra da ilha, decide retornar ao mar como náufrago.
Doutor em Física, Sabato era considerado um grande especialista em termodinâmica. Trabalhando no Laboratório Curie, em Paris, tinha um futuro promissor como cientista. Mas, aos trinta anos de idade, no auge da carreira acadêmica, largou tudo. Sentia-se corroído por um inexplicável vazio.
Voltou ao seu país de origem e se refugiou numa casa no meio do mato, uma espécie de solitária cabana sem qualquer tipo de conforto, e passou a viver isolado da civilização e suas maldições.
Nessa estadia no mato passou a se dedicar à literatura. Seu primeiro romance, ''O Túnel'', foi recusado por várias editoras. Para conseguir publicá-lo, colocou as mãos em suas economias e pagou do próprio bolso a edição. Escrito de maneira vigorosa e coroado por um pessimismo filosófico, o livro rapidamente ganhou edições em todo o mundo.
Na sequência escreveu outros romances como ''Sobre Heróis e Tumbas'' (1961), ''Abadon, o Exterminador'' (1974). Sua produção ensaística foi mais extensa, entre os vários títulos estão ''Homens e Engrenagens'' (1951), ''O Escritor e Seus Fantasmas'' (1945) e ''Nós e o Universo'' (1947).
Quando passou a ser considerado um dos grandes escritores de língua espanhola do século 20, Ernesto Sabato simplesmente abandonou a literatura para se dedicar à pintura. No final da década de 70, trocou o lápis pelo pincel, atividade que exerceu até o final da vida.
Na década de 80 foi escolhido para presidir a Comissão Nacional Sobre Desaparecimento de Pessoas que investigava os sequestros, torturas e assassinatos de civis durante a ditadura militar argentina entre 1976 e 1983. O texto final redigido pelo escritor recebeu o nome de ''Relatório Sabato'', popularmente conhecido como ''Relatório Nunca Mais''.
Levando em consideração toda essa trajetória, é possível imaginar que o livro com as memórias de Sabato tenha a dimensão de um tijolão de mil e poucas páginas. Ledo engano. ''Antes do Fim - Memórias'', publicado na Argentina em 1999 e lançado no Brasil em 2000 pela editora Companhia das Letras, possui apenas cento e poucas páginas.
''Antes do Fim'' revela um homem velho e cansado de viver. Um homem melancólico que fez mais a opção pelo esquecimento do que propriamente pelas lembranças. Nas primeiras linhas Sabato já abre o jogo: ''Nunca tive boa memória, sempre sofri essa desvantagem; mas talvez seja um modo de recordar apenas o que se deve, talvez a maior coisa que nos aconteceu na vida, a que tem algum significado profundo, a que foi decisiva - para o bem e para o mal - nesta complexa, contraditória e inexplicável viagem rumo à morte que é a vida de toda pessoa.''
Também deixa claro que escreveu ''Antes do Fim'' por insistência dos amigos, como uma mensagem de esperança aos jovens (que chamava de ''herdeiros do abismo''): ''Escrevo sobretudo para os adolescentes e jovens, mas também para aqueles que, como eu, se aproximam da morte e se perguntam para que e por que vivemos e lutamos, sonhamos, escrevemos, pintamos ou, simplesmente, empalhamos cadeiras.'' De uma maneira sutil, escreve para realizar uma espécie de acerto de contas com o pessimismo e a dureza que impregnou toda a sua ficção.
O testemunho de Sabato está equilibrado tanto no passado, como no presente e no futuro. Após ter acompanhado os acontecimentos de todo o século 20, o século que colocou em prática o que ele chamava de assustadora ''desumanização da humanidade'', procura algum tipo de esperança nas próximas gerações.
Apesar de se esforçar em ver alguma esperança para o homem, apresenta sua descrença em relação ao futuro do mundo. Em seu pensamento, o homem contemporâneo, ao perder suas utopias, perdeu o sentido de sua própria vida: ''Só quem for capaz de encarnar a utopia está qualificado para o combate decisivo, o de recuperar o quanto de humanidade foi perdido.''
No epílogo de ''Antes do Fim'', intitulado ''Pacto Entre os Derrotados'', Ernesto Sabato coloca toda sua esperança nos jovens como únicos sujeitos capazes de reduzir o perigo que a humanidade corre no jogo do poder. Despe-se de vestimentas e cascas para dizer que ignorância está na razão.
Serviço:
Antes do Fim
Autor - Ernesto Sabato
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Sérgio Molina
162 páginas
Quanto - R$ 45,00
Fragmento:
Os jovens como você, herdeiros de um abismo, vagam exilados numa terra que não lhes dá abrigo. Nesse desarrimo existencial e metafísico, sofrem órfão de céu e de teto. Compreendo sua aflição, o desconcerto de pertencer a um tempo em que ruíram os muros, mas em que ainda não se avistam novos horizontes. Falsos luminares pretendem cativar sua vontade falando nas telas. Você deve achar que não existe nenhuma possibilidade de mudança quando o valor da existência é menor do que o preço de um anúncio publicitário. O ceticismo agravou-se por causa da crescente resignação com que assumimos a magnitude do desastre. A banalidade com que se degradam os sentimentos mais nobres, degenerando o homem em uma caricatura patética, em um ser irreconhecível em sua humanidade.
Eu também tenho dúvidas, e por vezes chego a pensar se são valiosos os argumento com que tentei encontrar um sentido para a existência. Reconforta-me saber que Kierkegaard dizia que ter fé é a coragem de sustentar a dúvida. Eu oscilo entre o desespero e a esperança, que é a que sempre prevalece, porque, senão, a humanidade teria desaparecido quase desde o começo, pois são tantos os motivos para duvidar de tudo. Mas com a persistência desse sentimento tão profundo quanto disparatado, desprovido de toda lógica: pobre do homem que conta apenas com a razão.
(Fragmento de ''Antes do Fim'', de Ernesto Sabato)


