Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Logo ao nascermos, no ponto zero, tem início a longa jornada em direção à morte. Nascemos para morrer e, entre um pólo e outro, decorre aquilo que chamamos de vida.
Assim como a vida, a morte também é um dom da natureza. A vida caminha naturalmente para os braços da morte - e a morte sempre está a sua espera, de braços abertos. Em algumas situações os pólos se invertem, a morte caminha para os braços da vida - e se esta estiver de braços abertos, a recebe como filha pródiga. Em outras palavras, morte voluntária, suicídio.
Tema complexo e delicado, em várias situações assume a forma de tabu. Mas, em algum momento da vida, a grande maioria das pessoas já pensou em acabar com a própria vida. A diferença é que um pequeno grupo dessas pessoas, além de pensar, executa o ato. A Organização Mundial da Saúde, numa estimativa da década passada, calculava que mais de mil pessoas cometem suicídio por dia em todo o mundo. Não é um número desprezível.
O suicídio pode ser encarado de muitas maneiras, pode ser pensado de muitas formas. Uma dessas formas está em ‘‘O Deus Selvagem - Um Estudo do Suicídio’’ do ensaísta e crítico literário inglês A. Alvarez. A obra percorre o território da morte voluntária através das portas da literatura. Investiga o poder que o suicídio exerceu e exerce sobre a imaginação criativa de poetas e romancistas.
Lançado pela Editora Companhia das Letras, ‘‘O Deus Selvagem’’ é um estudo coerente dentro de seu enfoque. Alvarez começa escrevendo sobre a poeta norte-americana Sylvia Plath que numa manhã de janeiro de 1963, colocou a cabeça dentro do forno e abriu o gás. Fala de sua convivência com Plath e comenta seus versos carregados de vida e morte. Em seguida realiza um histórico do suicídio através dos tempos, como foi encarado, da Grécia antiga até a modernidade. Realiza um painel de como a morte voluntária foi analisada dentro da psicanálise e da sociologia para depois entrar no enfoque literário propriamente dito. Analisando obras e escritores específicos, traça um mapa de como a literatura se constituiu como um espelho das transformações culturais e sociais frente ao suicídio. Começa com a Idade Média com Dante Alighiere, passa pela Renascença com John Donne, atravessa o Romantismo para chegar no início do século 20 com a radicalidade do Dadaísmo - onde o suicídio se transforma numa forma de arte. Em alguns períodos a própria literatura deixou seu papel de espelho para se tornar sujeito determinante da realidade.
‘‘O Deus Selvagem’’ é um trabalho lúcido e sensato. Apesar de intelectual, é pontuado por sentimentos. No último capítulo da obra, ‘‘Deixar-se Ir’’, Alvarez relata sua própria tentativa de suicídio no passado. Considerando-se um suicida malsucedido, relata o processo depressivo que levou-o a ingerir dezenas de comprimidos para dormir. No final da história, acordou no hospital, em estado de coma. Voltou ao mundo dos vivos sem ter entrado em contado com a senhora morte: ‘‘O desespero que tinha me levado a tentar o suicídio tinha sido um desespero puro, imaculado, como desespero final e sem resposta que uma criança sente, sem antes, sem depois. E, infantilmente, eu tinha esperado que a morte não só pusesse fim a esse desespero, mas também que o explicasse. (...) Eu não pensava mais em mim mesmo como alguém infeliz; em vez disso, dizia a mim mesmo que tinha ‘problemas’ - o que é uma maneira otimista de colocar a coisa, já que problemas implicam soluções, ao passo que a infelicidade é simplesmente uma condição da vida com a qual nós temos que conviver, como o clima.’’
Aos 70 anos de idade, A. Alvarez já publicou dezenas de livros envolvendo crítica literária, ensaios, poesia e romance. Em 1997 a Companhia das Letras publicou ‘‘Noite’’ um interessante ensaio sobre coisas e sentidos que envolvem o lado escuro das 24 horas do dia, a noite. ‘‘O Deus Selvagem’’ não é uma obra recente, foi publicada originalmente há quase 30 anos, em 1971, e mesmo assim preserva vitalidade.
Para Alvarez, a grande maioria dos suicídios é um pedido de socorro. Em ‘‘O Deus Selvagem’’ não enaltece nem abomina a morte voluntária. Fecha o livro com uma citação de Henry James com alguma dose de esperança: ‘‘A vida é, de fato, uma batalha. O mal é insolente e forte; a beleza, encantadora mas rara; a bondade tende a ser fraca; a loucura tende a ser rebelde; a perversidade, leva a melhor; os imbecis, a ocupar posições superiores; as pessoas de bom senso, a ocupar posições inferiores, e a humanidade, a ser, no geral, infeliz. Mas o mundo como ele é não é uma ilusão, não é um fantasma, não é um pesadelo de uma noite; acordamos para ele novamente para todo e todo o sempre; não podemos esquecê-lo, nem negá-lo, nem renunciar a ele.’’
‘‘O Deus Selvagem - Um Estudo do Suicídio’’ de A. Alvarez, Editora Companhia das Letras, tradução de Sonia Moreira, 287 páginas, R$ 28,00.

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