Rio de JaneiroA atriz Regina Casé está em alta. Na pele de Rosalva, mãe de quatro filhos, tornou-se praticamente sex-symbol da novela das sete da Globo, ‘‘As Filhas da Mãe’’, cujo último capítulo foi reprisado ontem.
Na previsão do autor, Sílvio de Abreu, Rosalva seria batalhadora e alegre, mas a sensualidade era um detalhe. Por insistência do público, tornou-se desejada por três galãs: Tuca Andrada (Nico, o bom caráter), Tiago Lacerda (o vilão Adriano) e Tony Ramos (Manolo, galã maduro). A repercussão surpreendeu Regina, mas ela não escondeu a satisfação de ser a gostosona do pedaço, pela primeira vez depois de muitos anos e personagens no teatro, no cinema e na televisão.
Regina, que já apresenta o programa ‘‘Um Pé de Quê?’’ no Futura, comandará mais algumas atrações no canal. Uma delas é ‘‘Pé de Página’’, às terças-feiras, às 21h30 horas. Será uma retrospectiva dos grandes acontecimentos nas décadas de 50, 60, 70 e 80. Em entrevista, a atriz fala sobre o sucesso de sua personagem e de seus planos profissionais para este ano.
O que achou de ser considerada a gostosona da novela?
Vou aproveitar enquanto durar. Que meu marido (o diretor Estevão Ciavatta) não me ouça (risos)! O autor não havia me pedido, mas queria aquela mãezona italiana, com uma sensualidade mais interna, como Ana Magnani ou Sofia Loren. Aliás, nas críticas a ‘‘Eu Tu Eles’’ no exterior, falaram que eu fazia as outras atrizes parecerem garotinhas anoréxicas, que eu era uma mulher com corpo generoso. O Silvio tinha dito que, no filme, me achava gostosona. Eu também porque o pessoal lá em casa nunca reclamou (risos).
Seu marido tem ciúmes ao te ver beijando galãs em cena?
Ele diz que não, mas acho que sim. O desinteresse que demonstra por essas cenas indica isso. Há poucos dias, fomos para Sertãozinho, em São Paulo, para o aniversário de 90 anos da avó dele, e o Estevão perguntou a ela se os beijos da Rosalva não eram um absurdo. Ela disse: que nada, que bom beijar outros homens além do marido!
Tal como Darlene, de ‘‘Eu Tu Eles’’, você construiu uma personagem mais contida. O que as duas têm em comum e o que as diferencia da Tina Pepper, seu último papel na televisão?
Com o tempo, as pessoas percebem que você é capaz de outras coisas além das que estão acostumadas a ver. Eu venho do ‘‘Asdrubal’’ (‘‘Trouxe o Trombone’’, grupo dos anos 70), onde fazia de tudo: drama e comédia. Na televisão, virei humorista porque poucas atrizes jovens querem fazer papéis diferentes dos de mocinha e da mocinha e eu não tinha tipo físico para isso. Só as humoristas topam não aparecer lindas em cena. Fico feliz de poder explorar outros ângulos, trabalhar com nuances e não ir só na boa.
A espontaneidade da Rosalva veio do Sílvio de Abreu ou de você?
É 50% de cada. Ponho muito no personagem e Sílvio os incorpora ao texto. Nem dá para distinguir o que é meu e o que é dele. Às vezes elogiam como meu o que foi inteiramente escrito por ele e vice-versa. Isso é legal porque batemos um bolão e fizemos gol. E olha que a gente se fala de caju em caju.
O que é isso?
É uma expressão nordestina, que quer dizer muito raramente.
A Rosalva é uma volta por cima depois do programa ‘‘Muvuca’’?
Não, porque a Muvuca era um projeto fantástico numa conjuntura ruim. Num programa semanal, eu exigia de mim e da equipe a mesma qualidade de um mensal, o que é impossível. A televisão aberta passava por problemas e, em horários difíceis, a audiência média foi de 23 pontos, o que hoje é motivo de comemoração. Aliás, nesta novela, eu estou me sentindo de férias no Havaí. Depois de dez anos, só sou responsável pelo que posso ser. Desde o ‘‘Programa Legal’’ tinha que estar no esquemão da Globo, ser diferente e administrar uma equipe de amigos. Já pensou ser patroa do próprio marido, como na Muvuca?
Quais são seus planos para 2002, além do ‘‘Um Pé de Que?’’
‘‘Um Pé de Que?’’ continua na TV Futura e já gravei piloto de ‘‘Passeio de Escola’’, para crianças. Vamos também fazer outro programa sobre a história das pessoas diante do fato histórico. E tenho também um projeto de contracenar com as pessoas que venho encontrando nesses dez anos, desde o ‘‘Programa Legal’’. Sem um texto pré-estabelecido, mas brincando, vai ser muito enriquecedor para mim.
Alguma coisa relacionada com o ‘‘Teatro do Oprimido’’, de Augusto Boal?
Absolutamente nada! Eu gosto é de Nietzsche, do forte. Não acho essas pessoas oprimidas. Nós dependemos deles para tudo: para comer, dançar, rir. Quando eles descobrirem isso, vai haver uma mudança. Farei ‘‘Teatro dos Fortes’’.
A Rosalva era uma nordestina em São Paulo. É uma forma de fazer as pazes com a cidade?
Não há pazes a fazer porque sempre foi um caso de amor. Tenho tantos amigos em São Paulo quanto no Rio. Minha filha nasceu lá, o pai dela é de lá, onde morei nos anos 80. Houve problemas entre imprensa carioca e paulista, mas nada a ver comigo. Adoro São Paulo e sempre me senti muito querida lá.
Cinema e teatro estão em seus planos?
Pode avisar para todo mundo: estou à espera de convites para teatro e cinema. Só não produzo agora porque teatro é muito trabalhoso e cinema, muito caro. Às vezes acham que não tenho tempo para outros projetos porque trabalho com minha equipe, mas quando vale a pena, dá-se um jeito. Foi assim com ‘‘Eu Tu Eles’’’ e o resultado foi o que se viu.

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