A eles, com muito amor
Antônio Mariano Júnior
De Londrina
Por que a maioria dos mais de um milhão de pessoas que se rendeu aos encantos de Prenda Minha, o disco do oba-oba minha gente, compraria o novo CD também ao vivo de Caetano Veloso? Por que levar para casa um disco pomposo demais da conta, se não tem nenhum hit à altura de Sozinho, a canção que conduziu o cantor e compositor baiano ao grupinho dos grandes vendedores de disco? Quem tem que responder são os fãs de última hora esses animadinhos e romanticozinhos melosos que acreditam ter Caetano Veloso e Peninha, o dono da tal Sozinho, o mesmo quilate e brilho.
Pois bem, chegou a hora da verdade. Quem realmente gosta de Caetano Veloso desde a época em que vendia minguadas cópias há comprar e vai até gostar de Omaggio a Federico e Giulietta. Não porque é disco maravilhoso, imprescindível ou coisa assim. Quer dizer, até é por aí. É que é muito bom saber e ouvir, principalmente que Caetano Veloso está cantando coisas mais, digamos, cabeça e menos tronco e membros. Sim, porque tudo indicava que, deslumbrado com o sucesso nunca dantes degustado, o filho de Dona Canô voltasse apregoando que ser popular é lindo e odara e tascasse na gente outro disco duvidoso como Prenda Minha.
Antes das considerações, vamos aos fatos. Omaggio a Federico e Giulietta (Universal) foi gravado ao vivo nos dias 28, 29 e 30 de outubro de 97, na Itália. Mais precisamente em Rimini, cidade onde foi parido o cineasta Federico Fellini (1920-1993). As apresentações foram realizadas em prol da Fondazione Fellini. O pedido veio de Maddalena Fellini, irmã de Federico. Na carta-solicitação Maddalena dava conta, entre outras coisas, de que Giulietta Masina (1921-1994) havia colocado os ouvidos numa música feita a ela pelo compositor, em 87.
A informação bateu forte em Caetano! Dono de um ego deste tamanho, imagina como bateu forte!! E ele topou. Só que em vez de uma apresentação puramente cordial, Caetano optou por fazer um concerto digno de sua admiração por Fellini e, de quebra, por Giulietta. Daí que Omaggio a Federico e Giulietta é um disco conceitual. Concebido sob a emoção e imagens ofertada por Fellini e sua Giulietta que ainda atravessam a alma de Emanuel Caetano Vianna Telles Veloso.
Há sutis e fortes referências sonoras a filmes como La Dolce Vita,As Noites de Cabíria, La Strada, Ginger e Fred entre outras preciosidades fellinianas. A memória afetiva de Caetano abarca histórias vividas na vida real a vida em Santa Amaro da Purificação, sua cidade natal e histórias vistas na vida irreal promovidas na tela por Fellini. E a isso, somem-se histórias adquiridas no decorrer da vida real e irreal projetadas por Caetano no seu cinema transcendental.
O disco abre com a versão falseteada de Come Tu Mi Vuoi, da trilha sonora de La Dolce Vita, agora rebatizada de Que Não se Vê. O compositor deu letra nova mas fez questão de manter a estrofe em italiano escrita por T.Amurri para a música de Nino Rota. Feitas as reverências iniciais, Caetano remete, em seguida, os ouvintes para onde tudo nele começou Santa Amaro da Purificação. É hora de matar as saudades com a antológica Trilhos Urbanos.
Ao todo, Omaggio... traz 17 canções em português, duas em italiano e uma em inglês, além de um laririri qualquer em Gelsomina (M.Galdieri-Nino Rota). A seleção de repertório foi calcada em reminiscências. E é preciso conhecer um pouco a história de Caetano não só a musical para entender que raios de ligação tem Chega de Saudade (Tom Jobim-Vinicius de Morais), com Coração Materno (Vicente Celestino), uma desgraceira só, e Come Prima, canção italiana cafoninha, com Fellini.
A primeira canção, de acordo com o raciocínio do cantor, é tão emblemática na sua formação musical como Fellini foi na sua formação cinematográfica. A segunda, porque representa o sincretismo de banana com poesia proposta pelo movimento criado por ele, a Tropicália. E a terceira por conter elementos kitsch urbanos presentes quase sempre nos filmes de Federico. Então tá, né!
Pois bem, se é para confundir os menos conhecedores de Caetano é melhor ouvir o fado Coimbra (Raul Ferrão/José Galhardo) que traz como música incidental e instrumental In a Persian Market utilizada em determinado trecho do filme As Noites de Cabíria (57). Ficou belo mas é difícil acompanhar a viagem que Caetano fez para, resumidamente, dizer Saudade (palavra final do verso da canção) a Federico e Giulietta.
E é dessa maneira que se faz Omaggio.... Pode parecer confuso à primeira vista, mas é sincero o tributo mesmo rendido através de um conceito particularíssimo. E assim o disco vai prestando tributo a Fellini seja através da deliciosa Patrícia (Damaso Peres Prado/versão de A.Bourges, utilizada em La Dolce Vita) aliás é engraçado ouvir caetano cantando versos como falam que sou bela Patrícia, (logo ele atualmente com ares de Maurício) ou mesmo Lets Face The Music (Irving Berlin), outra faixa admirável, extraída da trilha sonora de Ginger e Fred (86).
Claro, é preciso dar a Giulietta o que é de Giulietta. E a ela, ele canta Giulietta Masina, sem a citação, como no original, de Cajuína essa música ganhou faixa à parte. A canção-tributo teria sido feita quando Caetano viu ou reviu a atuação de Giulietta como a prostituta Cabíria em As Noites de Cabíria. Eis pois, Giulietta, a puta de uma outra esquina.
Entretanto, é Fellini quem dirige esse filme de Caetano Veloso. Tudo arde e corta e sangra e Fellini escorre nas lembranças da adolescência do cantor e compositor baiano que se arriscou até ser cineasta, no esquisito Cinema Falado. E as imagens se constroem e o público precisa entender os sentimentos de Caetano projetados em Nada, gravado originalmente por Waldemar Reis, ou Ave Maria, registrada por Augusto Calheiros, ou Come Prima e Chora Tua Tristeza, todas elas executadas apenas ao violão. Eis aí o ponto alto do filme, desculpe, do disco de Velô.
Do CD foram subtraídos os comentários feitos por Caetano durante as apresentações. Cá pra nós, graças a Deus porque Caetano não fala, dá palestra. Algumas coisinhas foram deixadas, entre elas uma saraivada de grazie sapecada no público italiano.
Em compensação, no encarte do disco, Patrícia Veloso, ou melhor, Maurício Veloso, desculpe, Caetano Veloso soltou a mão para explicar, com riqueza de detalhes (haja paciência para ler) como, por que e o que tem a ver essa ou aquela canção com os homenageados. Escreveu ele, entre outras coisas, que nos dias da apresentação foi acometido por um probleminha qualquer na faringe que teria prejudicado sua performance vocal. Frescurite aguda!! Não tivesse contado ninguém iria notar.
Omaggio... ainda está sob fortes vibrações de Fina Estampa, o disco ao vivo de 95. A diferença é que desta vez, Caetano dispensa orquestra e apóia-se no fantástico quarteto composto por Jaques Morelenbaum (violoncelo e também diretor musical), Luiz Brasil (violão) Jorge Helder (contrabaixo) e Carlos Balla (bateria). Duração, 66 minutos.
Além de ser um disco bom e verdadeiro, Omaggio... surge para reparar a frouxidão de Prenda Minha. Omaggio... é um caleidoscópio. Quanto mais se gira mais dele se extraem imagens belas. Deixem esse disco rodar e rodar e rodar zilhões de vezes. É um trabalho pomposo sim, mas não frio. Ao contrário: Omaggio... é só amor. E muito amor!!!
Repertório de Omaggio a Federico e Giulietta
-Que Não se Vê (Come Tu Mi Vuoi Nino Rota-T.Amurri), com letra de Caetano Veloso
-Trilhos Urbanos (Caetano Veloso)
- Giulietta Masina(Caetano Veloso)
-Lua, Lua, Lua, Lua(Caetano Veloso)
-Luna Rossa (V.De Crescenzo-A.Vian). Música incidental: Le Notti di Cabiria (Nino Rota)
-Chega de Saudade(Tom Jobim e Vinicius de Moraes)
-Nada (Dames-Sanguinette, versão de Ademar Muharran)
-Come Prima (M.Panzeri-S.Di Paola-S.Taccani)
-Ave Maria (Erothides de Campos)
-Chora Tua Tristeza (Oscar Castro Neves-Luvercy Fiorini)
-Coração Vagabundo (Caetano Veloso)
-Cajuína (Caetano Veloso)
-Gelsomina (M.Galdieri-Nino Rota)
-Lets Face the Musica And Dance (Irving Berlin)
-Coração Materno (Vicente Celestino)
-Patrícia (Damaso Peres Prado. Versão de A. Bourges)
-Dama das Camélias (João de Barro-Alcyr Pires Vermelho)
-Coimbra (Raul Ferrão-José Galhardo). Música Incidental In a Persian Market (Alberty William Ketelbey)
-Gelsomina (M.Galdieri-Nino Rota)Caetano Veloso lança um belo disco ao vivo feito em homenagem a Federico Fellini e Giulietta Masina
Arquivo FolhaCaetano Veloso: trabalho conceitual para homenagear Fellini e GiuliettaArquivo FolhaReproduçãoArquivo FolhaDe Federico e Giulietta vieram imagens e emoções que atravessam a alma do cantor e compositor baiano





