A educação sexual deve ir à escola
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segunda-feira, 05 de junho de 2017
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 

Em pleno século 21, o tema sexualidade e suas ramificações ainda causam muitas divergências de opiniões na sociedade. No âmbito escolar não é diferente. E neste caso, o mais agravante talvez seja o fato de a educação sexual estar longe de ser trabalhada em sua totalidade. Enquanto outros assuntos são tratados de maneira sistemática, esta restringe-se, na maioria das vezes, à anatomia e reprodução humana. Entre disputas nas bancadas políticas, a temática de forma ampla não é formalizada como parte integrante do currículo obrigatório. Ou seja, depende do Projeto Político Pedagógico de cada escola, mas que é norteado pelo que prevê o Plano Nacional de Educação, bem como o Plano Municipal de Educação, que em sua maioria, retiraram as palavras "gênero", "sexualidade", "orientação sexual" e "diversidade sexual" dos documentos.
Diante disso, crianças e adolescentes se veem perdidos em questões inerentes à vida social humana. Dentre as várias manifestações, a orientação sexual e a identidade de gênero sequer são mencionadas. Professora da UEM (Universidade Estadual de Maringá), Eliane Maio, psicóloga, mestre em Psicologia Pós-Doutora e Doutora em Educação Escolar, diz que trabalhar a educação sexual na escola em todas suas vertentes se faz primordial, "pois querendo-se ou não, elas se encontram nas escolas, pois este espaço é repleto de diversidades". "Ao se organizar projetos, currículo, atividades adequadas, científicas sobre sexualidade (e temas correlatos), proporcionaria aos alunos a questão do conhecimento que visa ao discernimento, ao respeito consigo e com as outras pessoas, à não violência sexual, a evitar a gravidez na adolescência e às DST."
E, ao contrário do que líderes de entidades, sobretudo religiosas e políticos conservadores argumentam, Eliane defende que conversar, explicar, dialogar sobre estes temas não implicam em mudar à orientação sexual de ninguém. "Falar, estudar, dialogar sobre este tema, pode ajudar a prevenir. Com isso, evita-se, sim, a violência sexual, por exemplo, em que os discentes podem dialogar com segurança sobre temas relacionados à sexualidade e podem se prevenir. A criança ou adolescente ao compreender sente-se mais seguro para se defender", diz, acrescentando a importância dessa mudança, principalmente quando deparados com dados que apontam para aumento das denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes, gravidez na adolescência e aumento dos crimes de homo/lesbo/transfobia com requintes de crueldade.

Se as dúvidas de pais e educadores são parte inerente ao processo, a professora orienta que a temática deve fazer parte do currículo escolar, assim como quaisquer outros componentes escolares. "Devem-se estudar quais temas podem ser inseridos em cada ano escolar e estudando-se muito, qual seria a forma mais adequada de introduzi-los com os discentes, proporcionando diálogos e discernimentos sobre: amor, afeto, respeito, escolhas, prevenção, cuidados, liberdade, apoio, autonomia, conhecimentos científicos etc., libertos de quaisquer preconceitos, mitos ou interditos. Temos muito a fazer ainda por um processo de educação sexual escolar que vise ao empoderamento, ao discernimento e à autonomia. E a escola tem condições de realizar isto."
Portanto, relegá-las ou ignorá-las, definitivamente, não é o caminho. "A escola está repleta de "sexualidade". Há diversos gêneros, diversas identidades de gênero e orientações sexuais implícitas e explícitas no espaço escolar, como em quaisquer outros espaços. Não falar ou estudar sobre elas não farão com que deixem de existir. Pelo contrário, por se deixar de estudar sobre estes temas, pode-se levar a que se tenham relações sexuais sem escolhas, gravidez precoce, violências sexuais, contrair DST etc., sem o devido cuidado e autonomia que uma educação sexual emancipatória pode promover."

Sexo biológico e papel social são coisas diferentes
Com o objetivo de informar, discutir e construir, a Escola Apoena em seu Espaço de Formação, trouxe a Londrina a psicóloga Roseli Sayão para a palestra "A sexualidade, a autonomia e a ética", afim de de estabelecer uma parceria educacional em benefício das crianças e adolescentes, entre escola e família. Autora dos livros "Sexo: Prazer em Conhecê-lo" e "Sexo é Sexo", "Educação Sem Blá blá Blá", a psicóloga presta consultoria em empresas e escolas, dissertando sobre cidadania e sobre educação de crianças e adolescentes. O Espaço de Formação é um local para planejamento e cuidados na formação da equipe pedagógica, reuniões dedicadas às famílias e encontros sobre temas emergentes com convidados especialistas abertos à comunidade em geral.
Segundo Roseli, as escolas estão restringindo a educação sexual como orientação sexual e informações sobre a vida sexual genital. "Educação sexual é dar todo o contexto de princípios de valores sociais em que sua sexualidade pode ser exercida e que você tenha a consciência disso. A sexualidade é todo esse aparato social, biológico e cultural que me permite exercê-la, entender como direito e defendê-la." Nesse sentido, para ela, nenhum assunto pode ser proibido como tem acontecido. "Há questões polêmicas ainda, como identidade de gênero, em que não existe ainda uma conclusão, apenas hipóteses. Mas não podemos ignorar. Eu prefiro entender que, na escola, os alunos precisam aprender, antes de tudo, a ser cidadãos, ter valores e ética na sexualidade, viver para o outro e com o outro sem preconceito. Sexo biológico e papel social são coisas diferentes."
Portanto, é preciso que as escolas, de acordo com ela, passem a tratar a sexualidade como algo natural, respondendo às questões, dúvidas e comportamentos que as crianças possuem de maneira tranquila e sem alarde. "Já no caso dos adolescentes, o papel da escola é dar mais que informações, pois existe um contexto sociocultural para entender essas informações. Por exemplo: se um aluno pergunta o que é aborto, é preciso dizer que o aborto é interrupção de uma gravidez, podendo ser provocado ou espontâneo. Mas não só isso. O educador deve contextualizar essa definição dizendo que no Brasil é proibido por lei, mas há países em que é permitido em todos os casos. E por aí vai. E não moralizar o aborto. Mas a escola não sabe fazer isso." (M.T.)


