Imagem ilustrativa da imagem A educação pela imagem



Não podemos fugir do fato de que atualmente as crianças acessam rapidamente as telas e isso em sala de aula, tem configurado uma nova realidade. Os alunos chegam como um repertório muito mais amplo, o que vai favorecer na apropriação do ato de ler e escrever.

Essa constatação é da pedagoga e doutora em Educação, Beatriz Carmo Lima de Aguiar, da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Ela trabalha com alfabetização desde 2005 e afirma que houve uma mudança nos últimos anos no aprendizado das crianças devido à influência das telas de celular, computador, entre outros.

"Hoje, elas estão chegando nas salas de aula com outro repertório e toda essa experiência pode levar ao conhecimento e à interpretação individual daquilo que elas estão vendo", diz. Na infância, a primeira leitura ocorre dos gestos dos pais, dos familiares. Em seguida, as crianças leem através das imagens.

Em um artigo, o diretor de produto da Cambridge University Press, John Ade, afirma que os seres humanos são, por natureza, visualmente orientados. "Cerca de 40% de todas as fibras nervosas que se conectam ao cérebro estão ligadas através da retina. Além disso, sabemos que o nosso cérebro processa essas informações 60 mil vezes mais rapidamente do que texto e que cerca de 90% da informação que chega ao cérebro é através de imagens", explica.

A docente do Centro Universitário de Belas Artes, em São Paulo, Zilpa Maria de Assis Magalhães, lembra que as crianças hoje já lidam melhor com os aparelhos (celulares) do que os adultos e nesse sentido, a questão é o quanto é importante lidar com maior consciência sobre esses elementos.

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"Ao meu ver, essas relações são fundamentais porque tudo que a gente vê é interpretado. Você tem até verossimilhança, mas você não tem realidade. A realidade é construída por nós", acrescenta ela, que tem formação em Artes Visuais e em Educação.

O docente da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Gustavo Cunha de Araújo acrescenta que ao "ler" imagens pode haver uma facilidade maior de compreensão do mundo à nossa volta, mas para isso é preciso se alfabetizar visualmente.

"Estamos rodeados de imagens e qual é a compreensão que devemos ter delas? Essa questão não é diferente quando pensamos no ambiente escolar", afirma ele, formado em Artes Visuais e mestre em Educação.

Lucinea Aparecida Rezende, doutora em Educação da UEL: "O mundo no qual estamos inseridos é repleto de imagens e a alfabetização precisa contemplar essa questão "
Lucinea Aparecida Rezende, doutora em Educação da UEL: "O mundo no qual estamos inseridos é repleto de imagens e a alfabetização precisa contemplar essa questão " | Foto: Ricardo Chicarelli



APROFUNDAR
Esses questionamentos estão levando muitos pesquisadores a repensar metodologias de ensino. Especialistas em educação defendem que o ato de alfabetizar tem que acompanhar o mundo como ele se apresenta. "O mundo no qual estamos inseridos é repleto de imagens e essa alfabetização precisa contemplar a questão imagética", diz a doutora em Educação da UEL, Lucinea Aparecida de Rezende.

Ela é especialista em leitura e ao analisar questões educacionais, enfatiza que o professor é fruto do seu tempo e do seu meio também. "O aluno de hoje tem a mídia em todos os seus aspectos, presente no dia a dia. No entanto, o professor foi formado para não ver isso de maneira tão forte como as crianças e os jovens veem. Então, há um descompasso entre o que o aluno vive e o que o professor foi preparado para ver e ensinar", sustenta.

Porém, Lucinea ressalta que isso não significa que todos os professores ajam da mesma forma. "Tudo é um processo de elaboração, de repensar e buscar se inserir no tempo. Fazer a imagem como elemento do conhecimento", afirma.

Lucinea comenta que há dois aspectos a considerar. A presença da imagem no livro e a imagem no mundo, isto é, como ela se apresenta. "A imagem no mundo é uma linguagem forte e se apresenta como o real. E é ela que aparece fortemente na vida do jovem. Ele não precisa da imagem como explicação da palavra, ele tem uma leitura própria da imagem", diz ela, enfatizando que a leitura própria é fundamental, pois assim como aprendemos a ler a palavra, precisamos aprender a ler a imagem.

Araújo revela ainda que os estudos sobre uso das imagens em alfabetização são recentes na educação brasileira. "Os professores precisam se aprofundar no estudo sobre as imagens, pois é uma forma de conhecermos e percebermos a potencialidade que as mesmas podem ter se utilizadas como recurso metodológico na educação. Para isso, devem delimitar qual linha seguir para a prática pedagógica, pois há o viés semiológico, histórico, entre outros", conclui.

ALÉM DOS LIVROS
Zilpa que trabalha com formação de professores, conta que há pesquisadores desenvolvendo trabalhos com crianças pequenas (um ano e meio) com máquinas fotográficas e filmadoras, além dos livros, jornais e revistas.

"É muito bacana quando se pode estar junto com eles para descobrir possibilidades. Isso pode fazer com que nosso processo educacional tenha um caminho completamente diferente, pois eles estão vendo o mundo de um jeito diferente. Sempre foi assim, mas hoje com uma velocidade muito maior", aponta.

Ela explica que quando fotografamos e fazemos vídeos, temos a possibilidade de ler a imagem e vivenciar um tempo diferente. De forma sucinta, a educadora cita os três deuses gregos do tempo: Chrónos que é o tempo da duração no qual estamos acostumados, o Kairós que é da oportunidade e Aión, da intensidade.

"Considerar os deuses do tempo talvez tenha uma possibilidade de alargamento desse movimento da vida, da gente construir uma relação diferente. O tempo cronológico, o aiônico e kairológico são importantes para gente poder também trabalhar a percepção, as imagens e poder refletir sobre elas, buscando até uma possibilidade de deleite diferente. A criança pequena por exemplo, pode estar no processo aiônico, isto é, intensa, enquanto nós estamos só preocupados com o tempo que está perdendo", finaliza.

O pesquisador americano John Ade salienta ainda que os professores "devem estar preparados para discutir e dar exemplos em resposta ao recurso visual e permitir que os alunos se envolvam em uma discussão mais aberta e animada em sala de aula."

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