Renata Sorrah é o que se pode chamar de uma pessoa despachada. Mal acaba de gravar a última cena de uma externa, da novela ‘‘Um Anjo Caiu do Céu’’, ela logo descola com um produtor alguém que a leve em casa. Uma vez na confortável casa que tem no bairro Jardim Botânico, Zona Sul do Rio, a atriz carioca de 47 anos desacelera um pouco e calmamente se dedica a estudar as personagens da novela de Antônio Calmon. Se não bastasse interpretar uma –a recatada Naná –, ela acabou ganhando um outro papel: a extrovertida Shirley, que juntamente com a própria Naná forma o novo triângulo amoroso com João Medeiros, personagem de Tarcísio Meira. ‘‘Interpretar duas personagens numa mesma novela está sendo novidade na minha carreira. E o grande barato é que as duas são completamente diferentes uma da outra’’, vibra a atriz.
Quando foi convidada para participar da produção dirigida por Dênis Carvalho, Renata jamais poderia imaginar que no meio da trama iria ganhar um novo papel. E a atriz acha mesmo que a entrada de Shirley ajudou a dar um novo fôlego à trama. ‘‘Mas independentemente disso, esta novela já tinha toda sua história construída’’, imagina a atriz. Renata estava há mais de três anos sem fazer uma novela inteira na Globo. A última foi ‘‘A Indomada’’, quando viveu a dona de bordel Zenilda. Antes de acertar a participação no horário das sete, ela foi convidada para atuar em ‘‘Porto dos Milagres’’, de Aguinaldo Silva. Como já estava comprometida com outros projetos, ela acabou não aceitando o convite. ‘‘Mas nem lembro mais qual era o papel’’, desdenha a atriz.
Enquanto finaliza sua participação em ‘‘Um Anjo Caiu do Céu’’, Renata aguarda com ansiedade a estréia do filme ‘‘Madame Sat㒒, que conta a história de um famoso e valente travesti carioca da década de 20. Figura rara na telona, Renata não esconde o entusiasmo com esta produção. ‘‘Foi apenas uma semana de filmagem, mas vivi intensamente este trabalho’’, completa.
Quais as dificuldades de interpretar dois papéis ao mesmo tempo?
Em primeiro lugar, trata-se de um grande exercício de concentração para o ator. Tenho de tomar cuidado com o jeito de cada uma para não fazer uma grande confusão. Não só comigo mesma, como também com o público. Cada uma tem sua personalidade bem definida pelo autor Antônio Calmon. Não posso deixar o jeito da Naná se derramar no estilo todo extrovertido da Shirley. E vice-versa. Por isso, é preciso ter muita concentração. Só que interpretar a Shirley está sendo um grande barato. Nunca vivenciei algo parecido como nesta personagem, que é uma manicure, suburbana e generosa. Ela está um pouco na linha dos personagens do cineasta italiano Federico Fellini. É quase uma prostituta.
O que você acha que levou o autor a incluir esta personagem na trama, já que Shirley não estava prevista no início?
Acho que realmente para dar um novo impulso. Mas apesar da Shirley ter entrado somente agora, posso garantir que não senti nenhuma barriga nesta novela. Não houve um momento em que dissemos: ‘‘Ih, estão enchendo linguiça’’. Muito pelo contrário.
Você acha que novelas de longa duração tenham um formato da dramaturgia ultrapassado, como muitos dizem?
Ela poderia ser um pouco mais curta, talvez. Tornaria toda trama mais dinâmica. Mas pegando como exemplo a própria novela ‘‘Um Anjo Caiu do Céu’’, chego à conclusão que o folhetim continua sendo eterno no Brasil. Vem desde ‘‘Mil e Uma Noites’’. A vida toda foi assim. Às vezes, fico na dúvida: como posso priorizar uma profissão como essa num país com tantas desigualdades sociais como o Brasil? Toda esta violência, pobreza e fome me revoltam muito. Por isso, chego a me questionar: ‘‘Será que não poderia me usar em uma outra coisa?’’. Só que a gente precisa do circo e do palco para viver. Estou no circo levando alegria ao coração das pessoas. Meu trabalho tem uma função social também que é alegrar as pessoas. A tevê é companheira de tudo isso. Tudo isso justifica a rotina de quase um ano de gravação.
Com esta rotina, onde você busca motivação para continuar atuando, depois de 31 anos de profissão?
Espero que esta chama nunca se apague. É minha profissão e é a única coisa que sei fazer na minha vida. Depois de 30 anos, quando resolvi seguir a carreira de atriz, concluo que valeu a pena. Esta foi a maneira que encontrei para tentar modificar alguma coisa. Talento eu sei que tenho. A profissão de atriz é uma das coisas mais bacanas que existem. Pelo menos, para mim. Os personagens, por exemplo, acompanham a gente a vida inteira. Mesmo depois de ficar velha, a gente ainda acaba recebendo bons projetos para fazer e desenvolver. Temos grandes exemplos como a Elza Gomes. Recentemente, recebi um convite para fazer o filme sobre o travesti Madame Satã. É uma história linda e que acabou me contagiando. Na vida, a gente nunca pode parar. E com este filme, eu tive a oportunidade de aprender a cantar. Minha profissão tem a importância e também a função de tocar e falar com as pessoas. Alcança um número expressivo de pessoas. Mas não uso da minha profissão para alimentar meu ego. Muito pelo contrário.
Você não costuma emendar um trabalho no outro na tevê. Por quê?
Faço muito teatro. Aliás, sou uma atriz de teatro. Por esta razão, sou eu quem faço minhas montagens e também cuido de minhas produções. Sou eu também quem corro atrás de patrocínio para fazer minhas peças. Outro motivo é justamente o fato de nunca ter gostado da coisa de fazer novelas seguidas. Acho muito cansativo. Para mim, é fundamental a gente dar um tempo de vez em quando. Gosto também de me reciclar depois de concluir alguns trabalhos. O descanso da imagem é fundamental e gosto de sentir ainda quando o público sente uma certa vontade de ver a gente representando de novo na televisão. É muito bom para o ator.
Na televisão, por exemplo, existe uma cobrança da direção da Globo para você voltar a atuar depois de um longo período longe do vídeo?
Depois de um certo tempo, tenho realmente de fazer alguma coisa. É um acordo de cavalheiros. Não pode e também não é justo estar contratada na casa, como é meu caso, e depois ficar muito tempo sem fazer absolutamente nada. É natural: existe uma hora que a gente tem de retornar mesmo. Na Globo, por exemplo, minha última novela inteira foi ‘‘A Indomada’’, quando interpretei uma dona de bordel. Depois realizei uma rápida participação em ‘‘Andando nas Nuvens’’ e agora estou em ‘‘Um Anjo...’’.
Antes de ser escalada para fazer ‘‘Um Anjo Caiu do Céu’’, você recebeu um convite para fazer ‘‘Porto dos Milagres’’. Por que, você não quis fazer a novela do Aguinaldo Silva?
Por falta de agenda mesmo. Estava com outros compromissos marcados. Mas gostaria de ter feito a novela do Aguinaldo Silva. Com ele, realizei excelentes trabalhos na televisão. Mas o convite do Dênis para fazer a novela das sete foi meio irrecusável. O Dênis não gosta de dirigir uma produção sem minha participação. Ele chegou a me oferecer outro personagem menor ainda. De primeira, eu acabei recusando. Mas depois veio com a Naná e disse que o personagem era para mim e ponto.
‘‘Um Anjo Caiu do Céu’’ está chegando na reta final. Quais foram as razões para o sucesso da novela, que vem mantendo uma média de até 40 pontos no Ibope?
Acho esta novela alegre e de muito bom gosto. A trama é ótima, os atores estão bem entrosados, além de toda história ser muito bem dirigida. Gosto também dos figurinos. Não tem nada gratuito nesta novela. Nada de cafajeste. A direção também soube escolher muito bem o elenco. Mesclou atores consagrados com vários jovens talentosos. Tudo isso faz com que o ambiente se torne muito saudável. Todo mundo se dá muito bem .Acho que isto se deve muito à direção do Dênis Carvalhos. Ele é muito catalizador. Por isso, tudo acaba ficando muito leve. Não existe estrelismo. O que percebo nesta novela é que todos estão se divertindo muito: desde os atores, passando pelos diretores até chegar na técnica. Esta é a receita do sucesso do ‘‘Um Anjo Caiu do Céu’’.

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